domingo, 31 de agosto de 2008

Tortura nas mãos da Guarda Civil: detido em Barañain relata que perdeu os sentidos e que foi acordado a pontapés


Bofetadas, “o saco”, simulação de eléctrodos, ameaças a pessoas próximas, gritos... e inclusive uma perda de sentidos de que foi resgatado a pontapés. Estes são alguns dos episódios do “inferno” narrado pelos jovens Xabier Sagardoi e Luis Goñi, detidos em Barañain no último domingo e enviados para a prisão por Grande-Marlaska por suposta pertença à organização Segi. Um dia depois de serem encarcerados, puderam contar à sua advogada o que sofreram nas mãos da Guarda Civil. Referiram que às vezes “não eram capazes nem de falar”, e que os obrigaram a decorar as suas declarações.

Depois de passar a primeira noite na prisão madrilena de Soto del Real, os barañaindarras Luis Goñi e Xabier Sagardoi puderam comunicar, pela primeira vez, com a sua advogada de confiança e relatar-lhe “o inferno” sofrido durante os cinco dias nas mãos da Guarda Civil. Ambos confessaram que estes foram os “mais duros” das suas vidas.

Os jovens referiram que os interrogatórios policiais se arrastavam “horas e horas entre socos, ameaças e a aplicação do ‘saco’”. Contaram que em alguns momentos “não eram sequer capazes de articular uma palavra”, segundo transmitiu a Askatasuna.

Aprofundando aquilo que indicaram aos seus familiares na véspera, detalharam “socos e pancadas” por todo o corpo, mas de maneira especial na cabeça, nos testículos e nas costas.

Goñi e Sagardoi precisaram que os agentes faziam uso de “uma lista telefónica” para lhes bater. E explicaram que os guardas civis os obrigavam a “jogar ao jogo do ‘churrito’”, que consiste em levar com um jornal enrolado.

Para além disso, informaram que durante todo o período passado nas mãos da instituição armada permaneceram com os olhos tapados; só os puderam abrir na presença do médico forense e para ir à casa de banho, referiram à sua advogada.

Até perder os sentidos

Denunciaram que a aplicação do saco foi “constante” durante os cinco dias. Um dos detidos indicou que, na primeira vez que lhe aplicaram o saco, perdeu os sentidos e foi acordado a pontapés pelos agentes que o tinham à sua guarda nesse momento. Quando tinham o saco na cabeça, os agentes obrigavam-nos a ajoelhar-se e a erguer-se, enquanto lhes davam socos no estômago.

Narraram que a Guarda Civil também ameaçou aplicar-lhes os eléctrodos e que, inclusive, simularam fazê-lo em algumas ocasiões. Sagardoi disse que lhe chegaram a colocar os cabos e Goñi, que lhe molharam a cabeça e os cotovelos e insinuaram a aplicação dos eléctrodos.

Os dois jovens também relataram ter sido objecto de maus tratos psicológicos. Os agentes tentaram fazer-lhes crer, por exemplo, que tinham detido a companheira ou que a mãe tinha dado entrada no hospital. Além do mais, levaram-nos a acreditar que não eram os únicos detidos, e os agentes faziam ruído à sua volta para lograr o seu objectivo.

O inferno voltou

Quando tinham passado cerca de dois dias desde a detenção, de acordo com os cálculos dos jovens, os agentes deixaram-nos “descansar” um pouco. Comentaram à advogada que tentaram dormir e acalmar. Mas, “quando julgávamos que tudo tinha acabado – referem ambos –, o inferno começou de novo”.

A Askatasuna destacou na sua nota de imprensa que todas estas práticas tinham como objectivo que os jovens decorassem as declarações policiais em que se davam como culpados e acusavam outros jovens. Um dos detidos disse que até teve que aprender a planta da instalação de um esconderijo, para depois a repetir na declaração.

Tanto Goñi como Sagardoi explicaram como denunciaram perante o médico forense o que se estava a passar. E acrescentam que também o fizeram perante o juiz Fernando Grande-Marlaska, quando estiveram, em regime de incomunicação, na sua presença.

Os detidos dirigiram-se ao juiz e afirmaram que “ainda eram capazes de voltar a repetir a declaração policial ponto por ponto”, uma vez que tinham sido obrigados a decorá-la. Acrescentam que o magistrado da Procuradoria, ainda assim, os tentou “intimidar”, dizendo que decorar esse tipo de declarações é “impossível”, e que nessa altura lhes perguntou que tipo de estudos tinham feito, para ter esse nível de memória. Os barañaindarras informaram a sua advogada de que o próprio juiz pediu ao magistrado para se acalmar.

Assim que saiu da prisão em que se encontram os jovens, a advogada de Sagardoi e Goñi explicou ao GARA que, depois de tudo o que passaram, os encontrou “tranquilos”, já que na prisão puderam “dormir e descansar”.

A Guarda Civil irrompe noutra casa em busca de mais um jovem

Um dia depois da ordem que enviou Goñi e Sagardoi para a prisão, a Guarda Civil irrompeu de novo em Barañain. Fê-lo de noite e num domicílio da Avenida Comercial, com o propósito de prender um outro jovem da localidade navarra.

Os agentes da instituição armada não alcançaram os seus objectivos, já que ali não se encontrava o jovem que procuravam. Moradores de Barañain referiram ao GARA que os agentes o confundiram com outro jovem, que se encontrava em casa com outras duas pessoas, e que o chegaram a algemar antes de verificarem que não se tratava de quem realmente procuravam. Também denunciaram a este periódico que mantiveram este jovem deitado no chão, enquanto lhe pisavam a cabeça. No total, permaneceram no andar cerca de três horas.

A operação policial teve início no domingo passado, quando Luis Goñi, de 24 anos, e Xabier Sagardoi, de 22, foram detidos. Nesse dia, a Guarda Civil procurou um terceiro jovem no bairro de Iturrama [em Pamplona], mas não o conseguiram deter.
Fonte: Gara

Arnaldo Otegi foi libertado


Depois de 15 meses encarcerado, por homenagear uma das principais figuras do antifranquismo e da luta pela libertação do povo basco, Argala, Arnaldo Otegi foi recebido por centenas de pessoas à porta da prisão. As suas primeiras palavras foram dedicadas a todos os presos políticos bascos.

quarta-feira, 20 de agosto de 2008

Sobre o direito a decidir e…


Este pode ser um tempo político realmente decisivo para Euskal Herria como realidade em processo mutável de reconstrução, como um povo com entidade específica na velha Europa e na nova União Europeia, como uma nação com consciência colectiva, social, cultural e política de querer ser dona de si mesma e solidária com as pessoas, povos e nações que habitam no planeta, e como um estado que deve defender os interesses e sentimentos da sua cidadania. Temos a razão e as razões democráticas para dispor do nosso presente e futuro.

Euskal Herria é um povo que, como disse Victor Hugo, canta e dança em ambos os lados dos Pirinéus. Desde tempos imemoriais, do Neandertal até aos nossos dias, intermináveis lutas caracterizaram a sua história. Pelas suas terras passaram Romanos e Visigodos. No ano de 778, em Orreaga (Roncesvalles), Carlos Magno foi repelido e obrigado a renunciar à conquista. Depois, as guerras carlistas e as lutas antifeudais, antimonárquicas e antiditatoriais, juntamente com a emergência de um potente movimento operário nas minas e na indústria, formarão parte da sua cultura política.

Há alguns anos, possivelmente em 1989, depois da final do campeonato de pelota à mão entre Retegi e Galarza, Benito Lertxundi, durante a tertúlia que acompanhou o almoço que se seguiu ao jogo, abordou com profundidade a nossa problemática desportiva, cultural e política, concluindo com uma reflexão que todos partilhámos: “Do que Euskal Herria precisa é que desapareçam as fronteiras do Adour e do Ebro. Nós queremos realizar-nos como uma nação sem fronteiras em relação às demais pessoas e povos do mundo”.

Vivíamos a época do contra-revolucionário “plano ZEN (Zona Especial Norte)”, um projecto esboçado pelos serviços de espionagem militar espanhóis e desenvolvidos pelo governo de Felipe González para tentar aniquilar a dissidência ideológica e política de Euskal Herria, que se expressava na inter-relação objectiva do choque armado da ETA, o protagonismo dos movimentos sociais e a implantação institucional do Herri Batasuna. À guerra suja intensiva juntaram a aliança dos partidos políticos, estabelecidos no sistema, para complementar a errática estratégia do isolamento e da derrota da Esquerda Abertzale. Daí o fracassado «Pacto de Ajuria Enea» e as «conversações de Argel».

Hoje, depois de tantíssimos anos de repressão implacável – detenções arbitrárias, torturas, sequestros, execuções extrajudiciais, encerramento de meios de comunicação, ilegalização de partidos, de organizações sociais e criminalização de ideias políticas – e das mais perversas tentativas de manipular e/ou tergiversar o sentido da confrontação, encontramo-nos face à realidade incontestável de um profundo conflito político.

Um contexto que nos obriga, mais do que nunca, a colocar todo o esforço no desenvolvimento e no aprofundamento de quantas iniciativas surjam, para juntar, realmente, a maior quantidade de forças, da cidadania basca, na defesa do nosso povo a decidir por si mesmo. As condições realmente existentes, aqui e agora, aconselham a abrir com responsabilidade, sem dúvida, espaços de racionalidade para a busca de soluções efectivas.

Na Teoria dos Conflitos das Nações Unidas, expõe-se que em cada contencioso a tratar há que centrar o problema, em primeiro lugar, no reconhecimento das partes em confronto e, em cada caso, há que distinguir entre o racional, aplicável a ambas as partes, e o razoavelmente possível, em função da correlação de forças no processo. Dela derivam duas interpretações. A fundamentada na dialéctica «Vitória-Derrota», em que se destaca a “estratégia de soma zero”, de técnica política aniquiladora do contrário, utilizada pela extrema-direita do mundo. Hitler na Alemanha, Franco no Levantamento fascista de 1936, EUA no Vietname e no Iraque, ou Israel em relação à Palestina. E a interpretação alternativa, que se baseia na dialéctica «Diálogo-Negociação» para procurar a resolução democrática dos conflitos (Guiné, Angola, Moçambique, África do Sul, Irlanda…) defendida pela ONU, pela sua Assembleia Geral, pela actual União Europeia e o Conselho da Europa. Como é sabido, conflitos que resistiram, por um longo período, à estratégia da derrota de uma das partes, encaminharam-se, necessariamente, pela via da racionalidade e do diálogo.

Em Euskal Herria temos demonstrada a capacidade de resistência e a coragem suficiente para neutralizar o discurso belicista que o PP lidera e que se fundamenta na vitória do seu Estado e das Forças Armadas e na derrota dos seus possíveis contrários, sejam a ETA, a maioria do Parlamento de Vitoria, a Federação de ikastolas, a selecção de Euskal Herria ou a Euskaltzaindia [Academia da Língua Basca]. No século XXI defendem a Espanha Imperial, de trágico passado. Arde-lhes o triunfo colossal de Evo Morales e reivindicam para a oligarquia crioula a Autonomia dos territórios mais ricos da Bolívia. Consequentemente, defendem o actual Estado espanhol, como resto final desse Império, ignorando o processo de integração europeia e as reais perspectivas democráticas para a incorporação continental de pessoas e povos em processo aberto.

Além disso, a social-democracia, reinstalada na governação do Estado espanhol, apenas iniciado o caminho da racionalidade e do acordo, retorna ao esquema de fazer crer à opinião pública que vale tudo para exterminar o inimigo (a esquerda abertzale) e humilhar o adversário (Ibarretxe). Nesse cenário, as declarações de Urkullo, em que recrimina o EA [Eusko Alkartasuna] e atiça o fogo para reivindicar um lugar na fila das vítimas de uma parte, ilustram a má-fé e a desorientação do sector que representa dentro do seu partido; porque, precisamente, ele sabe melhor que ninguém que as voluntárias e os voluntários da ETA, a que se refere, são filhas e filhos deste povo que nasceram e cresceram durante o Estatuto de La Moncloa, subscrito em Gernika em 1978, e sabe cabalmente do arreigamento, social e afectivo, dessa juventude, e não pode ignorar quem foi Arkaitz Otazua e como soube amar a sua mãe, o seu pai e o seu povo.

Face ao direito democrático a decidir, não têm mais razões que o recurso ameaçador de um Tribunal Constitucional, carente de legitimidade e próprio de um Estado Imperial que persiste nas teses terroristas da «Vitória-Derrota». Ainda assim, a maioria do povo basco concebe, aberta e reiteradamente, a necessidade do «Diálogo-Negociação» e da conveniência da aproximação das instituições às necessidades e sentimentos da cidadania, nesta fase de Globalização Capitalista, adquirindo uma importância transcendente o conteúdo do direito democrático do povo basco a decidir por si mesmo.

Txomin ZILUAGA

Fonte: kaosenlared

Audiência Nacional espanhola ordena que localizem De Juana para que preste declarações em Donostia


Tasio_Gara (“Ouvi comentar em círculos científicos de total confiança que a culpa das alterações climáticas é com toda a certeza do CO2 que emite o Iñaki de Juana...” / “Maldito terrorista!” / “A respirar por aí como se não fosse nada!” / “A Audiência Nacional deveria tomar o assunto em mãos!”)

Dezassete dias depois de Iñaki de Juana ter abandonado a prisão madrilena de Aranjuez, e após 21 anos na prisão, a Audiência Nacional espanhola decidiu intimá-lo na qualidade de acusado, com base na cerimónia de acolhimento que lhe prestaram na Alde Zaharra [Parte Velha] de Donostia no dia 2 de Agosto e à qual De Juana não assistiu. O magistrado do tribunal especial Eloy Velasco ordenou ontem que o ex-preso donostiarra fosse localizado, para assim o poder intimar e ouvir as declarações relacionadas com a leitura de uma carta cuja autoria lhe é atribuída. E esta é a questão principal que Madrid pretende esclarecer através das declarações do donostiarra: saber se foi o ex-preso político o autor do texto.

Respondendo à petição realizada pela Procuradoria espanhola na segunda-feira, o titular do Tribunal de Instrução número 6 da Audiência Nacional espanhola, Eloy Velasco, ordenou ontem a imediata localização de Iñaki de Juana para que este compareça nos tribunais de Donostia na qualidade de acusado.

A este respeito, segundo informaram agências de informação espanholas, o juiz Velasco teria já enviado um questionário aos tribunais da Praça Calcuta da capital guipuscoana com o objectivo de que sejam respondidos pelo ex-prisioneiro mediante carta precatória; o tribunal especial decidiu que o interrogatório se realize em Donostia, uma vez que é aqui que De Juana tem residência fixa. Não obstante, a citação judicial não poderá ser datada até que seja localizado.

Convém recordar que o anterior titular do Tribunal de Instrução número 6 do tribunal especial, Pablo Ruz, abriu diligências de ofício no mesmo dia em que Iñaki de Juana abandonou a prisão espanhola de Aranjuez, deixando para trás mais de 7800 dias de encarceramento. Dois dias depois, a 4 de Agosto, o magistrado espanhol ordenou à polícia espanhola, à Guarda Civil e à Ertzaintza a elaboração de relatórios policiais para determinar se houve ou não algum elemento delitivo no contexto da cerimónia de recepção que se levou a cabo na Alde Zaharra.

Com os três relatórios policiais

Nenhum dos três corpos policiais espanhóis pôde atribuir a autoria do texto referido a Iñaki de Juana. Enquanto a polícia espanhola refere no seu relatório a identificação de cinco pessoas que teriam participado na cerimónia de recepção, nem a Ertzaintza nem a Guarda Civil conseguiram identificar nenhum assistente.

Segundo apontavam ontem as agências de informação, “durante a homenagem, os agentes do Serviço de Informação do Comando de Gipuzkoa viram dificultada a sua tarefa pela acção da Askatasuna”, que, acrescentavam, vetaram o acesso ao acto. Além disso, a instituição militar atribui ao organismo anti-repressivo a organização do evento, outra das questões que a Audiência Nacional espanhola decretou que se investigasse no mesmo dia em que a cerimónia decorreu.

De Juana, que foi perseguido desde o momento em que abandonou a prisão de Aranjuez até Euskal Herria, tanto pelas FSE como pelos meios de comunicação, não se tem visto nestas semanas no bairro donostiarra de Amara, onde supostamente teria fixado a sua residência. Questão que não implicou qualquer obstáculo para que vários meios de comunicação se postassem durante dias em frente a essa moradia.

Fonte: Gara

Sugestão de leitura: «Iñaki de Juana e a perversão da política espanhola», por Álvaro HILARIO

Em: kaosenlared ou eutsi (cas)

Extrema-direita pede proibição da manifestação de sexta-feira, em Bilbau, enquanto um numeroso grupo de cidadãos adere à convocatória

Informa a Sare Antifaxista que a plataforma de extrema-direita Dignidad y Justicia solicitou à Audiência Nacional espanhola que proíba a marcha convocada para a próxima sexta-feira em Bilbau, que coincide com o «dia grande» da Aste Nagusia e que tem por lema «Salbuespen egoerari stop. Euskal Herriak autodeterminazioa» [Stop ao estado de excepção. Autodeterminação para Euskal Herria], porque “atenta contra a Constituição espanhola e os interesses gerais do Estado espanhol”. Pedem ainda ao tribunal que solicite relatórios sobre a convocatória à Unidad Central de Inteligencia (UCI) e ao Servicio de Información da Guarda Civil.

Fonte: SareAntifaxista

Numa conferência de imprensa concedida ontem em Bilbau, vários cidadãos da capital biscainha apelaram à participação na manifestação referida, estando presentes numerosos elementos das konpartsak, a título pessoal, bem como o ex-mahaikide [porta-voz] do HB Tasio Erkizia, a advogada Arantza Zulueta e a representante independentista Arantza Urkaregi. Intervieram na ocasião Iker Uriguen e Euri Albizu, que procederam à leitura de um comunicado em que explicavam as razões da sua adesão.
Como membros de uma “sociedade civil que vê com suma preocupação a cada vez maior ausência absoluta de liberdades civis e democráticas”, criticaram o actual posicionamento do PSOE, que, na sua perspectiva, “faz pequeno o PP de Aznar”.

Últimas notícias
A Ertzaintza remeteu à Audiência Nacional um relatório com os dados relativos à convocatória. Já o Departamento do Interior de Lakua recordou que a manifestação se celebrou em anos anteriores sem que os juízes tivessem ordenado em “nenhuma das ocasiões medidas restritivas”. Mesmo assim, a plataforma Dignidad y Justicia pediu ao juiz Garzón “que se proíba esta manifestação”.

Ibai BARRIOS

Fonte: Gara

segunda-feira, 18 de agosto de 2008

Na sequência do ‘apartheid’ e da rapinagem: «Ondarroa, a escuridão gera insubmissão»

Tasio_Gara (OndHARROa / Harro = Orgulhosa)

Ondarroa, sem o querer nem o pretender, converteu-se em foco de atenção para além dos seus limites municipais. Não é ao acaso que reproduz à escala local uma boa parte dos ingredientes do conflito nacional: uma localidade que elege democraticamente os seus representantes; um estado absolutista que anula a decisão popular; uma burguesia colaboracionista que se presta a tornar operacional o atropelo; e uma cidadania que se revolta de mil maneiras perante semelhante desmando.

A gestora, quando usurpou a vontade dos seus conterrâneos, acreditou poder contar com uns quantos recursos para sair airosa do enredo. O primeiro seria a memória da gente: todos recordariam que o presidente da actual gestora tinha sido o primeiro governante da localidade após a ditadura. Não reparou o ex-autarca que a sua anterior gestão foi referendada pelos votos e que, na actual, se apropriou do cadeirão municipal que as urnas lhe negaram. O segundo recurso com que a gestora contava era o oposto: a falta de memória da gente do lugar. Já o insinuaram com frivolidade nos dias do assalto: “de momento as águas andam revoltas, mas trata-se de remoinhos passageiros; com o tempo voltará a calma”. Parece que os “gestores” não acertaram nos prognósticos. As suas declarações posteriores, segundo as quais as águas estavam a amansar, eram mais um reflexo dos seus desejos que da realidade municipal; passaram muitos meses e, a julgar pelas notícias, a indignação dos cidadãos mantém-se tão afiada como no primeiro dia. A gestora tentou seduzir os rebeldes (como o PNV gosta da sedução!) arranjando o passeio a Saturraran. Tentativa vã; os arruinados teimam na sua e não irão ceder nas reclamações até que lhes devolvam o cadeirão. Outro estratagema que a gestora utilizou foi o muito madrugar. “Convocaremos sessão plenária quando o povo estiver a dormir ou a preparar-se para ir trabalhar”. Nova previsão fracassada. Os estafados (ai que tormento!) apareceram naquelas horas temporãs acusando-os de “ladrões” e “espanhóis”. Recorrer à polícia? Como solução de emergência, fosse; mas ter que assinar os editais municipais flanqueado por dois gorilas era assim um tanto para o feio. A gestora mudou de lugar para realizar as sessões plenárias, mas a sua transumância também não resolveu o problema. Pior ainda, à gente espoliada deu-lhe para a desobediência civil: “se não temos direitos, também não temos obrigações”. E, estabelecido tal princípio de democracia básica, deixaram de pagar impostos. Os gestores, muito ao estilo peneuvítico [do PNV], confiaram em que uma agência executiva metesse os insubmissos na linha. Adjudicaram tão dificultosa tarefa à única empresa que se apresentou. Mas a Gesmunpal, depois de ouvir os habitantes, renunciou à concessão, mostrando bastante mais sensatez e responsabilidade que os adjudicatários.
Sr. Arambarri, deixe-se de biscates e saia do labirinto pela única porta que conduz a uma solução razoável. Devolva o cadeirão aos seus donos e a paz aos seus conterrâneos. Os factos mostram que a tenacidade e a coerência de Ondarroa não admitem falsos arranjos. Seria penoso acabar a sua vida política como um capitão de corsários.
Jesus VALENCIA
[educador social]

Fonte: Gara

Procuradoria da AN pede ao juiz que intime De Juana a declarar como acusado

De acordo com informações avançadas pelos companheiros da Sare Antifaxista, a Procuradoria da Audiência Nacional espanhola solicitou ao juiz central de Instrução número 6, Eloy Velasco, que intime Iñaki de Juana a prestar declarações como acusado de um suposto delito de “enaltecimento do terrorismo”, relacionado com a leitura de uma carta.
Os factos remontam a 2 de Agosto, dia em que De Juana saiu da prisão e lhe foi prestada uma homenagem em Donostia, à qual o ex-preso não assistiu e na qual se procedeu à leitura de uma carta.
A Procuradoria solicitou esta intimação apesar de a Guarda Civil não ter apurado se o ex-preso político foi o autor da missiva. No relatório enviado pelas Forças de Segurança do Estado espanhol ao tribunal especial não se identifica nenhum dos participantes no acto, nem sequer a pessoa encarregue de ler a carta.

Fonte: SareAntifaxista

Três bombas da ETA obrigam à evacuação de milhares de pessoas em Málaga


Uma chamada em nome da ETA para a Corporação de Bombeiros, efectuada por volta das 10h35 de ontem, alertou para a colocação de três artefactos: um na praia de Guadalmar, em Málaga, outro no porto desportivo de Benalmádena e o terceiro no quilómetro 232 da auto-estrada A-7. Na sequência desta chamada, a polícia espanhola estabeleceu um dispositivo para evacuar as pessoas que se encontravam nestas zonas e alertou a Guarda Civil no sentido de localizar o artefacto que estava na auto-estrada.

Mais de 10 000 pessoas tiveram que ser evacuadas da praia e das instalações portuárias referidas, assim como de hotéis e vivendas situadas nos arredores.

A primeira das bombas explodiu às 13h na praia malaguenha de Guadalmar, já sem banhistas e a escassos metros do hotel Tryp, embora, como referiu um dos seus recepcionistas, não tenha sido necessário evacuar este imóvel.

A segunda explodiu duas horas depois, às 15h, no interior do recinto desportivo conhecido como Puerto Marina, en Benalmádena. A Subdelegação do Governo espanhol em Málaga precisou que a zona já se encontrava desocupada, tal como as praias das proximidades. Fontes municipais citadas pela EFE explicaram que, no total, teriam sido desalojadas “mais de dez mil pessoas” entre os visitantes que estavam em Puerto Marina e os banhistas que se encontravam nas praias de Fuente de Salud, Malapesquera e El Satillo.

Testemunhas presenciais afirmaram que “o estrondo se ouviu numa área muito vasta” e comentaram que o artefacto – que provocou danos materiais em edifícios e veículos – teria sido colocado nas imediações do parque de estacionamento subterrâneo do porto desportivo, entre duas conhecidas discotecas.

O terceiro artefacto, semelhante aos dois anteriores, foi colocado na estrada que liga Málaga a Torremolinos. Foi encontrado cerca das 15h pela Guarda Civil, que deu o aviso à polícia para a sua desactivação.


O delegado do Governo espanhol na Andaluzia, Juan José López Garzón, não descartou a hipótese de se tratar do “mesmo comando” que teria colocado um explosivo em Torremolinos na madrugada de 29 de Julho. No entanto, essa acção não foi reivindicada pela organização armada, que apenas se refere no seu último comunicado a acções levadas a cabo entre 12 e 28 de Julho. O Ministério do Interior espanhol, por seu lado, atribuiu a sua autoria à ETA.

Os autarcas de Málaga e Benalmádena acorreram às zonas afectadas e tentaram passar uma mensagem de tranquilidade aos cidadãos, especialmente às centenas de milhares de turistas que nesta época se deslocam para a Costa del Sol. O primeiro edil de Benalmádena, Javier Carnero, lamentou que “pretendam acabar com a nossa principal fonte de riqueza, que é o turismo”.

Notícia completa: Gara

domingo, 17 de agosto de 2008

Refinada política penitenciária

Tasio_Gara [Responsável pela política penitenciária / Chiça!]

«Refinado: de singular e extraordinária qualidade, primor ou gosto na sua espécie». Sim, senhor porta-voz do Interior do PSOE, utilizou o termo exacto para definir a política penitenciária que o Estado espanhol pratica com os nossos familiares. É refinado que um dia antes de sair da prisão te comuniquem que, no cumprimento da doutrina 197/2006, vais ficar mais 10 anos na cadeia. São já 28 as pessoas que estão a desfrutar desse requinte. A expressão ‘pena perpétua’ é como a crise económica, não se admite, mas a sua existência é óbvia.

Se estar na prisão é duro, nem quero imaginar se padeces de alguma doença. Refinado é necessitar de ver um médico e não o poder fazer sem que passe um ano ou mais. Passar mais de seis meses com uma dor de dentes insuportável por não se facilitar a visita de um dentista. Mais refinado ainda é que, tendo cancro, não te ponham cá fora para poderes receber o tratamento de quimioterapia. Mais de uma dezena dos nossos familiares sofrem de doenças graves e incuráveis, mas continuam na prisão.

Espancamentos diários, proibições constantes de estudos, de comunicação, de intimidade, de paternidade/maternidade, de saúde, de defesa, de liberdade. Como consequência da sua refinada política penitenciária, ascende a 22 o número de presos mortos nas prisões.

Requintadas viagens as que nós, os familiares, nos vemos obrigados a realizar para os poder visitar – perigo de acidentes, despesa económica, impossibilidade de concretização para familiares com idade avançada ou doentes. Mas o melhor de tudo é quando chegas à prisão e ficas a saber que, por um qualquer motivo, o transferiram. Porque não quis varrer o pátio dos outros presos, porque está a cumprir um castigo e não o deixam sair, porque tu não exibes credenciais suficientes, segundo o funcionário de turno, sobre a tua relação de parentesco com o preso ou por qualquer outra invenção de última hora, voltas a Euskal Herria com 2000 km em cima sem ter visto o teu familiar. E com a sorte de não ter sofrido nenhum acidente de tráfego. Em consequência da dispersão, são 16 os familiares e amigos mortos.

Mas, pelo que andamos a ouvir nestes últimos dias, ainda querem progredir mais nesta política de vingança e ódio.

«Reinserir: voltar a integrar na sociedade alguém que estava condenado penalmente ou marginalizado». Proíbem-lhes: estudar, participar nas oficinas, ter um contacto normal tanto dentro como fora da prisão com as suas famílias, com os/as seus/suas companheiros/companheiras. Estudam-nos, analisam-nos, controlam-nos e vigiam-nos a cada segundo com o único objectivo de acabarem com eles antes da sua saída da prisão. E, se não o conseguem em 30 anos, aumentam-lhes a pena em 10 anos mais, para poderem continuar a fazê-lo. Se não podem aumentar mais a pena, inventam doutrinas, novos delitos ou delitos prescritos para os poderem manter na prisão. E, se por fim saem, continuarão a massacrá-los cá fora até conseguirem acabar com eles, embora para isso tenham que voltar a modificar o Código Penal vigente.

Nesta altura, em que estou a preparar os meus exames da licenciatura em Direito, questiono-me até ser capaz de continuar a estudar. Será que ninguém neste Estado democrático e de direito vai dizer nada contra esta nova barbaridade jurídica e humana que os políticos estão dispostos a levar por diante? Primeiro, através dos seus meios de comunicação, criam o alarme social propício, e depois, uns dias mais tarde, libertam a nova manobra jurídica que o Governo e o PP vão levar a cabo conjuntamente, para acabar com os nossos familiares, inclusive depois de terem cumprido a pena com acréscimos. A sua política em relação a tudo o que tem que ver com os presos políticos bascos é ‘arrependimento ou morte’.

Que querem vê-los a apodrecer, a sofrer e acabar mortos... Eu não vou questionar os vossos sentimentos e desejos, mas não se escondam atrás da legalidade, da moralidade e da justiça; admitam aquilo que procuram em qualquer uma das leis que aprovam quando olham para Euskal Herria, em todas as violações de direitos que aplicam aos presos políticos bascos e aos seus familiares, admitam aquilo que procuram também na sua aplicação e, sobretudo, no seu silenciamento.

Amigos que tanto gostam de viajar até Madrid e fazer umas fotos de primeira página, recordo-vos que vocês, políticos do PNV, ajudaram a esboçar esta política penitenciária que, como podem ver hoje em dia, não tem limites. Mas que se passa afinal, que para vocês também não os tem? Assassina o que esboça e põe em prática esta barbárie, mas também o que cala e consente. Se o PNV e os seus amigos de viagem quisessem, já teríamos acabado com a dispersão há algum tempo.

Força, abraços e muxus [beijos] desde Euskal Herria até Brieva, passando por Cáceres, Almeria, subindo para Burgos e para as Astúrias e depois até Fleury, Bapaume ou Toulouse... sem deixar de passar por nenhuma das prisões em que a dignidade salta qualquer muro, por muito alto que seja.

Nerea MORENO MAKUSO
[irmã e cunhada de presos políticos bascos]

Fonte: Gara

A língua, as danças e o canto conservam a identidade de Tafalla


Tafalla celebra hoje o seu terceiro dia de festas. E embora nas actividades programadas se possam encontrar seguramente elementos próprios de Tafalla, da mesma forma que acontece noutras localidades, também nesta histórica cidade as festas tendem para a homogeneização. Perante isto, alguns txokos [locais] como a txosna [barraca] da ikastola [escola de ensino em euskara] tentam manter e avivar alguns elementos que tradicionalmente caracterizaram as festas de Tafalla, defendendo a espontaneidade e o carácter participativo que lhe são próprios.

O léxico euskaldun de Tafalla

Jose Mari Esparza, estudioso da história e das pequenas histórias desta zona de Nafarroa, destaca que as danças e o cantar são “características fundamentais que se estão a perder face a actuações comerciais como as touradas e os espectáculos”. Por isso, indica que “na barraca da ikastola se criam ambientes propícios para recuperar o sabor tradicional das festas, em que os grupos dançam a jota, o arin-arin, a porrusalda ou a Era, e cantam”.

Entre as características próprias de Tafalla, é possível destacar as linguísticas. Esparza publicou recentemente na revista local La Voz de la Merindad um artigo em que recolhe o léxico em euskara que se manteve na zona. Assim, pode-se concluir que esta língua não desapareceu completamente nesta parte de Nafarroa no século anterior, uma vez que, mediante três suportes – a toponímia, os apelidos e o léxico –, se mantém viva até aos nossos dias, em que existem sinais de recuperação. Esparza alerta, não obstante, para o facto de a perda se continuar a dar, tendo em conta que nos últimos quarenta anos, com o desaparecimento de um modo de vida ligado ao pastoreio e à agricultura, também se foram perdendo palavras e expressões provenientes do euskara.

Contudo, muitos ficarão surpreendidos ao saberem que txirrintxa, em Tafalla, significa inveja; que lantxurria é o nome dado à geada; que sankartila é o nome que recebe a lagartixa, ainda que na ikastola se ensine que em euskara é sugandila. Esparza lamenta que, embora o euskara esteja a ser reintroduzido através das ikastolas, isso não tenha servido para travar a perda do dialecto próprio da zona. Valha a sua contribuição como testemunho, e também para que aqueles que sempre utilizaram o léxico mencionado no artigo – abundante, por certo – ganhem alento e estímulo para se aproximarem dessa língua, que talvez sintam como alheia.

Oportunidades não lhes faltarão em Tafalla. A plataforma EHE [Euskal Herrian Euskaraz / O País Basco em Basco] exorta as pessoas a viverem as festas em euskara; amanhã celebra-se a Euskal Jaia [Festa Basca], e a barraca das ikastolas oferecerá um espaço para desfrutar de danças euskaldunes e cantar em euskara.

«Também nas festas de Tafalla pediram o regresso dos presos e dos exilados bascos!»

Na sexta-feira, por ocasião do lançamento do foguete que anuncia as festas, numa praça de Navarra a abarrotar, repleta de ikurriñas e pequenas faixas a favor da amnistia, e apesar dos avisos da autarca, que não queria ver ikurriña nenhuma a pender do edifício municipal, uma enorme bandeira basca e uma faixa a reclamar a amnistia para os presos bascos acabaram por aparecer na fachada da Câmara Municipal.

Uma hora depois do estoiro do foguete, dezenas de pessoas juntaram-se nas imediações do bar El Pasadizo para exigir a amnistia para os perseguidos políticos bascos em geral e a libertação dos presos de Tafalla Jose Javier Osés, Inés del Río e Josu Bravo em particular. No caso de Del Río, que permanece presa já desde 1987 e que sofreu a aplicação da «doutrina Parot», exigiram a sua imediata saída da prisão, e tiveram ainda palavras de ânimo para Osés, encarcerado em Novembro.

Desse modo, dedicaram um aurresku e uma jota aos presos, e posteriormente os ali presentes cantaram o Hator, hator e o Eusko Gudariak, antes de terminarem as saudações com um brinde.

Jasone MITXELTORENA
Fontes: Gara e Gara

ETA reivindica três atentados contra adjudicatárias do TGV, num comunicado enviado ao GARA

Comunicado (eus)

Os atentados de Maio, Junho e Julho contra as empresas Amenabar – em Hernani e Zarautz –, Fonorte e Acciona – em Orio – foram obra da ETA e estão relacionados com a ligação destas empresas à construção do Comboio de Alta Velocidade (TGV). Assim o confirma a organização armada num comunicado feito chegar ao GARA, no qual assume também outras acções: a colocação da bomba no El Correo, dos explosivos que rebentaram em Noja e Laredo, e do artefacto que explodiu num retransmissor na serra de Elgea.

O texto destaca expressamente a condição de adjudicatárias do TGV das empresas Amenabar, Fonorte e Acciona, e alonga-se depois em críticas ao projecto. Em relação a isto, o comunicado da ETA insiste que “os interesses que estão por detrás do TGV são alheios a Euskal Herria. Não há um só benefício e, portanto, a única coisa que nos restará será a cicatriz de cimento que atravessará o nosso país de uma ponta a outra”.

Formula a sua crítica a partir de vários pontos de vista. Por um lado, afirma que “cada uma dessas toneladas de cimento enterra o nosso projecto popular”, sob o discurso da “suposta modernidade, do bem-estar e tantas outras palavras vazias”. Paralelamente, acentua o facto de, “também neste caso, não termos tido direito a decidir o que é melhor para o nosso povo”.

E acrescenta que este projecto “é o exemplo mais claro possível da política do PNV e dos seus acólitos. A ganância de alguns tem que ser garantida a todo o custo, sem lhes importar que, com tudo o que estão a fazer, se hipoteque Euskal Herria como projecto”, continua o comunicado.

Aprofundando esta última ideia, a organização armada basca pergunta-se “se um País Basco livre não implica, para o PNV e os regionalistas da sua esfera, um risco incrível, o risco de perder o seu poder e os seus benefícios económicos”.

«Não há atalhos»

A ETA liga esta problemática concreta à situação política geral para reiterar a sua crítica à tentativa de renovar “o abraço de La Moncloa” de há 30 anos. Ao PNV, diz-lhe claramente que o faz porque “a sua sobrevivência política está unida à gestão do Governo de Gasteiz”, e recrimina ao PSOE “a procura da enésima tentativa de assentar a reforma espanhola em Euskal Herria”. Consequentemente, conclui que “a aposta de ambos é, em última instância, uma aposta na guerra, de modo claro”.

Face a isso, a Euskadi Ta Askatasuna insiste em que a única solução passa por um marco democrático que reúna o direito a decidir e a territorialidade basca. E considera que a “paródia”, termo que atribui ao projecto de “pseudoconsulta”, contribui apenas para “ocultar a origem do conflito, esvaziar o direito à autodeterminação e desfigurar Euskal Herria”.

Postas assim as coisas, o comunicado expõe que “o MLNV [Movimento de Libertação Nacional Basco] não dilapidará um ápice das suas forças para procurar um lugar nessa legalidade estrangeira. Poremos toda a nossa força e determinação na libertação de Euskal Herria e continuaremos a construí-la, como até agora. Nesse caminho não há atalhos. A luta é o único caminho!”.

Aviso prévio no ataque ao El Correo

O comunicado da ETA acrescenta também um novo dado relevante para o esclarecimento do atentado contra a tipografia do El Correo, ocorrido em Zamudio na madrugada de 8 de Junho, e depois de muitos porta-vozes políticos terem sublinhado que se tinha realizado sem aviso telefónico prévio. A organização armada precisa que não foi assim. “A ETA quer fazer saber que realizou uma chamada para dar conta da explosão, e que as forças policiais cortaram o telefone depois de terem recebido a chamada, numa tentativa frustrada de apanhar militantes bascos”.

Acrescenta em seguida que estas forças policiais “não quiseram evacuar o El Correo, “colocando em risco a vida dos que ali estavam”.

O comunicado prossegue afirmando que a “ETA continuará a tomar todas as medidas ao seu alcance para não causar danos aos cidadãos”. Dessa forma, chama a atenção para o facto de a responsabilidade ser “por completo” dos “mandatários espanhóis”, na eventualidade de “não fazerem caso” das advertências ou de as tentarem “utilizar de maneira perversa”.

Na altura do sucedido, foi o Departamento do Interior do Governo de Lakua que afirmou que não tinha havido uma advertência telefónica prévia. A deflagração teve lugar por volta das 3h, e derrubou cerca de 40 metros de muro, sem ter causado ferimentos a nenhum trabalhador da tipografia.

Reacções ao último comunicado da ETA (cas)

Fonte: Gara

Actos de sabotagem: em Burlata, atacam sede do PSN e duas caixas automáticas com ‘cocktails molotov’

A sede do PSN [Partido Socialista de Navarra] e duas caixas automáticas do la Caixa e do Banco Santander, situadas na rua Mayor, foram alvo de acções de sabotagem durante a madrugada de sexta-feira, em Burlata [nos arredores de Iruñea (Pamplona)]. Os artefactos incendiários provocaram danos materiais, mas não há danos pessoais a lamentar.

Na sede da formação política, segundo indicavam ontem agências espanholas, o ataque esteve na origem de um pequeno incêndio, que provocou o escurecimento da fachada. Por seu lado, as duas sucursais bancárias atingidas mostravam também sinais do ataque, e nenhuma se encontrava a funcionar.
PSN, Governo de Nafarroa e UPN reagiram as estas acções de kale borroka [violência urbana].

Fonte: Gara

Apontamentos de Tasio ou notas à imprensa com simpatias franquistas

Tasio_Gara [O Governo tentará por todos os meios que Iñaki De Juana não viva nas proximidades de alguns dos familiares de vítimas... / Não sabemos se irá consultar as famílias dos assassinados na guerra civil, famílias que viveram 70 anos com os assassinos dos seus.]

Tasio_Gara [Especialidade olímpica espanhola]

sexta-feira, 15 de agosto de 2008

A ikurriña ao alto ou a identidade de um povo

“A nós, cabe-nos agora mostrar aos rebeldes a nossa determinação de ser livres. Se sairmos derrotados, a próxima geração levantará a ikurriña ao alto e continuará a batalha pela liberdade que nós iniciámos”. Estas palavras de Kandido Saseta, que foi comandante-chefe do Eusko Gudarostea [Exército Basco na guerra de 1936], manifestam o enorme valor simbólico que teve a bandeira basca para aqueles que deram a vida nas trincheiras de 36, em defesa da liberdade e da democracia despedaçadas pelo levantamento fascista. E foi essa clara identificação com a luta contra a imposição dos sublevados que, depois da guerra, tornou as suas cores proscritas, durante os longos anos da ignomínia franquista.

A batalha pela liberdade que Saseta anunciara, encarnada, neste caso, na luta pela defesa da ikurriña, não terminou. Jamais terminou. A sua legalização, em 1977, não foi mais que uma ilusão, a mesma que alguns viram naquele processo de transição política que realmente nunca existiu e que hoje em dia tenta dobrar Euskal Herria até à submissão. Foi Fraga [Iribarne] quem disse que “hão-de passar por cima do meu cadáver, antes de permitir a exibição dessa bandeira”. E aqueles que, como Fraga [Iribarne], nunca chegaram a admitir, nem muito menos a perdoar, a legitimação da ikurriña e daquilo que simboliza, procuram agora recuperar o terreno perdido, amparados na prepotência legal e judicial herdada daqueles sublevados, e na calculada passividade dos que escondem a ikurriña nos seus sumptuosos gabinetes, enquanto espetam com a espanhola nas varandas.

Lizartza, Bilbau, Donostia, Durango, Atarrabia... Em Nafarroa, a ikurriña não pode sequer ondear na rua. Na Bizkaia, em Gipuzkoa e Araba a espanhola está a impor-se, num edifício municipal a seguir ao outro. Em Lapurdi, Nafarroa Behera e Zuberoa, a administração francesa relega o símbolo basco ao estatuto de mero atractivo turístico, afastado de qualquer espaço político ou administrativo. Ontem, em Donostia, centenas de pessoas ergueram a ikurriña, tal como anunciara Saseta, como emblema da luta de um povo que resiste e procura decidir a sua própria liberdade.

Fonte: GARA

Manifestação em Burlata pelos presos doentes e contra a «doutrina Parot»

“Não é um problema dos presos ou dos seus familiares, mas de toda a sociedade”, realçaram na quarta-feira familiares de Pello Sánchez, Mikel Gil, Marilo Gorostiaga e Karlos Pérez. Apelam à mobilização neste sábado em Burlata.

Na apresentação de quarta-feira realçaram o facto de os seus casos não serem os únicos, nem muito menos em Iruñerria [comarca de Pamplona] - mas são especialmente graves. Trata-se de quatro habitantes que deveriam estar em liberdade condicional, de acordo com as leis espanholas; três deles – Pello Sánchez, Mikel Gil e Marilo Gorostiaga – por sofrerem de problemas de saúde graves, e o quarto, Karlos Pérez, porque não só cumpriu três quartos da pena, mas inclusive a pena completa, antes de o período de cativeiro ter sido prolongado através de chamada “doutrina Parot”.

A sua situação será denunciada no sábado com uma manifestação em Burlata a partir das 20h. Partirá do recinto das txosnas [barracas da festa], já que esta localidade celebra agora as suas festas. E os seus familiares apelam à sensibilização de todos os habitantes da capital navarra e das localidades da comarca, baseando-se na premissa de que este “não é apenas um problema dos presos ou dos seus familiares, mas de toda a sociedade”, e, como tal, afirmam que “toda a sociedade tem que lhe fazer frente”.

Tendo estes casos em especial atenção, incidiram na ideia de que para os doentes “é impossível levar um tipo de vida digno” e que nem sequer podem ser atendidos pelos seus médicos de confiança. No geral, concluem, a partir de todas estas situações, que os direitos dos encarcerados estão a ser violados de modo sistemático e que “fica bem claro que eles são utilizados como prisioneiros de guerra”.
Os convocantes da mobilização acrescentam ainda que o objectivo último da ofensiva é o Colectivo de Presos Políticos [EPPK]. “Querem-nos destruir fisicamente, psicologicamente, politicamente», expuseram.

Ijurko, Arizkuren, Oltza...

Na conferência de imprensa de apresentação do protesto previsto para sábado, foram lembrados outros casos de situações graves que afectam moradores de Iruñerria presos.

Recordaram, por exemplo, Hodei Ijurko, “que foi castigado e colocado em regime de isolamento depois de ter sido espancado”, na prisão de Soto del Real. Lembraram também Josetxo Arizkuren, em regime de isolamento 24 horas por dia: “Imaginemos por um momento que apenas podemos falar com alguém durante 40 minutos por semana e com um vidro pelo meio”, pediram os familiares. E aludiram ainda ao jovem de Donibane Eneko Olza; após ter sido condenado a nada menos que dez anos de prisão pela acusação de queimar uma caixa automática, hoje em dia continua preso, apesar de já ter ultrapassado três quartos da pena. Comparam a sua situação com a de Pilar Rubio, a mulher que instigou em 2004 a morte de Angel Berrueta, padeiro do mesmo bairro de Eneko Olza, e que hoje já se encontra em liberdade.

Fonte: Gara

Galparsoro: «A única chave para solucionar o conflito é voltar à via da negociação»


A autarca de Arrasate, Ino Galparsoro, aposta no “retorno à via da negociação e no respeito pelo direito à autodeterminação do povo basco” porque a ilegalização apenas servirá para mostrar “o fracasso do sistema” e não trará “a solução”.

A primeira edil do município guipuscoano afirmou na quarta-feira que tanto a sua detenção e o seu posterior ingresso na prisão como o recurso do Governo espanhol contra o acordo municipal em que a EAE-ANV se dissolveu em Arrasate para fazer passar os seus vereadores a um grupo misto são “tentativas” para “remover a esquerda abertzale do cenário político”, e destacou que pensar que as ilegalizações da EAE-ANV e do EHAK vão solucionar algo é “um verdadeiro fracasso do sistema”.

Numa entrevista concedida à Euskadi Irratia, Galparsoro referiu que seria “incrível” que, num Estado de Direito, se colocasse sequer a possibilidade de poder vir a deter mais autarcas da esquerda abertzale, tal como lhe aconteceu a ela, e afirmou que “fica bem claro que, dentro da estratégia que movem contra nós, pretenderam realizar uma tentativa de ataque também contra os representantes eleitos, e não sei o que se poderá vir a passar”.

Dessa forma, explicou que o acordo em que a EAE-ANV se dissolveu em Arrasate para passar a um grupo misto, “mais do que uma tentativa de evitar a ilegalização, era a única opção para trabalhar na nossa terra e cumprir o nosso programa”. “Não foi uma estratégia para fazer frente à ilegalização, antes o modo de responder ao mandato que recebemos dos cidadãos e aos compromissos que tomámos”, acrescentou.
Nesse sentido, a autarca de Arrasate reiterou que o recurso apresentado pelo Ministério Público do Estado espanhol contra esse acordo municipal é “um passo mais para nos remover do cenário político”.

Para além disso, realçou que “a única chave” para solucionar o conflito, “do mesmo modo que em todos os conflitos do mundo, é voltar à via da negociação e ao respeito pelo direito à autodeterminação do povo basco”.
Fonte: Gara

Arnaldo Otegi só sairá da prisão a 30 de Agosto, mas o Torquemada já se move!

O vice-secretário da Comunicação e porta-voz do PP, Esteban González Pons, pediu hoje ao Governo espanhol que “não caia no engodo” de ouvir o dirigente e porta-voz do Batasuna, Arnaldo Otegi, e que o vigie quando sair da prisão, no próximo dia 30.
González Pons referiu-se desta forma, numa conferência de imprensa realizada em Valência, à informação ontem publicada no diário El Mundo, segundo a qual Otegi se teria dirigido por carta a vários presos da ETA, para lhes pedir que apoiem outra negociação com o Governo.

O porta-voz do PP assegurou que este partido “apoia o Governo de Espanha e que o continuará a apoiar sempre enquanto se mantiver na posição em que se encontra, a de derrotar a ETA”, e, por isso, pediu-lhe que “não oiça a voz da serpente nem caia no engodo que lhe está a preparar”.


E por aqui continuou Sua Excelência, mencionando, de forma não rara, pistolas, gatilhos, gente que dispara e gente que manda, num discurso que não merece tradução e menção integral pela reiteração enjoativa de motivos como “não oiça”, “não caia no logro”, “nenhuma trégua política”, “nenhum diálogo”. Enfim, expressões próprias de agentes políticos interessados na construção da Paz e na busca de uma solução dialogada para os problemas que o seu país enfrenta com o País Basco…

Gora Otegi!

Notícia completa: kaosenlared

quarta-feira, 13 de agosto de 2008

‘100 Razões por que Deixei de Ser Espanhol’, de José Mari Esparza Zabalegi





Apresentação da obra 100 razones por las que dejé de ser español (Txalaparta, 2006) pelo próprio autor, o escritor basco José Mari Esparza Zabalegi, em que este expõe as razões que o levaram a tornar-se independentista.

José Mari Esparza Zabalegi nasceu em Tafalla (Nafarroa, EH), em 1951. Começou a escrever e a publicar na imprensa operária e clandestina nos tempos do franquismo. É um dos fundadores da Altaffaylla Kultur Taldea, na qual publicou vários trabalhos sobre temas históricos e regionais de Navarra. Trabalha como editor desde 1989; actualmente, dirige a editorial Txalaparta.

Bibliografia:
Tafalla vascona (Elkar, 1980), Un camino cortado. Tafalla 1900-1939 (Altaffaylla, 1985), Jotas heréticas de Navarra (Altaffaylla, 1988), Abajo las quintas. La oposición histórica de Navarra al Ejército español (Txalaparta, 1994), Potosí. Andanzas de un navarro en la guerra de las naciones (Txalaparta, 1996), Historia de Tafalla (Altaffaylla, 2001), Réquiem para sordos (Txalaparta, 2004), 100 razones por las que dejé de ser español (Txalaparta, 2006).

Colaborou ainda noutras publicações e em revistas e jornais bascos, com centenas de artigos.

Fonte: kaosenlared

Esquerda ‘abertzale’ convoca mobilização para dia 22, em Bilbau


Apoiadas por vários representantes da esquerda abertzale, Arantza Urkaregi e Marta Pérez compareceram ontem perante a comunicação social para fazer um apelo à cidadania basca para que secunde a mobilização do próximo dia 22, em Bilbau. No “dia grande” da Aste Nagusia, a concentração, que partirá da praça Elíptica ao meio-dia, terá um objectivo bem claro: fazer frente ao actual estado de excepção que Euskal Herria está a viver e reivindicar o direito de todos e todas à autodeterminação.

No âmbito deste apelo, as porta-vozes independentistas explicaram que esta manifestação irá decorrer “num momento político bastante especial” dentro da Aste Nagusia [Semana Grande]. Por um lado, o Município de Bilbau não colocará no mastro a bandeira espanhola às primeiras horas desse dia, como já vem sendo habitual, porque o autarca já a colocou de maneira permanente. “Esse símbolo da imposição do Estado é-nos imposto a nós, bilbaínas e bilbaínos, pelo PNV”, criticaram, recordando ainda que nestas festas também não poderão participar os perseguidos políticos.

Por outro lado e para lá deste contexto específico, fizeram uma leitura da actual situação política, lembrando as actuações esperadas para Setembro contra a esquerda abertzale, “em que pretendem dar uma coloração jurídica a decisões políticas do partido no Governo, o PSOE”. Citaram, como exemplos, a previsível ilegalização do EHAK e da EAE-ANV, as citações a 22 militantes independentistas, a sentença contra o Movimento Pró-Amnistia ou o julgamento contra a Udabiltza, entre tantos outros casos.

Estado de excepção

Todos estes factos, na sua avaliação, “são claros expoentes do estado de excepção que vivemos em Euskal Herria”. Uma situação política que, no parecer da esquerda abertzale, é “muito grave, nos leva até às épocas mais obscuras do franquismo e na qual se dá uma violação sistemática dos direitos da cidadania basca”.

Em relação a esta afirmação, referiram a tortura como o “exemplo mais cru”, recordando que ainda há poucos dias tivemos uma amostra dessa dura realidade, quando a Guarda Civil deteve um jovem em Gasteiz, que passou dois dias em Madrid e saiu da Audiência Nacional com o corpo cheio de marcas e hematomas, depois de ter passado duas vezes pelo hospital, e depois de ter sido “convidado” pelos seus captores a colaborar com a instituição militar espanhola. Uma actuação em que as representantes abertzales observaram “claros indícios de guerra suja”.

Recordaram ainda que Euskal Herria é um país “em que não existe democracia e em que não se pode decidir nem o presente nem o futuro, através da palavra e da decisão da cidadania basca”.

Olhando para a actual situação política, afirmaram que “é evidente que não poderemos tomar uma decisão sobre o nosso futuro se não superarmos o actual marco constitucional”.

Neste sentido, criticaram as últimas declarações de porta-vozes políticos como Unai Ziarreta, presidente do EA, ou Aintzane Ezenarro, eleita pelo Aralar, e também o facto de o PNV ir cumprir a legalidade espanhola, “sem mostrar intenção de superar o actual marco”.

Pouco depois desta conferência, o PP e a plataforma ultra España y Libertad pediram a proibição da manifestação, tendo este grupo anunciado que vai denunciar hoje mesmo os convocantes ao TSJPV [Tribunal Superior de Justiça do País Basco].

Ibai BARRIOS
Fonte: Gara

Duas soltas, para o enjoo...


Tribunal de Justiça da UE permite que Paris extradite um prisioneiro basco

O Tribunal de Justiça da União Europeia resolveu em menos de uma semana a petição de Madrid para que o preso político iruindarra Iñaki Santesteban fosse extraditado pelo Estado francês. O Tribunal Europeu entendeu que, apesar de em 2001 os tribunais franceses terem rejeitado essa petição com base na euro-ordem, agora podem deferi-la, atendendo ao chamado Convénio de Dublin de 1996.

No passado dia 6 de Agosto decorreu no tribunal sedeado no Luxemburgo uma audiência em que participaram os representantes espanhóis, os franceses e a defesa de Santesteban. Recusadas as alegações da defesa do preso basco, Paris já não enfrenta qualquer entrave jurídico para o deixar nas mãos de Madrid.

Fonte: Gara

O porta-voz do CGPJ espanhol defende a pena perpétua contra militantes bascos

Enrique López, porta-voz do Conselho Geral do Poder Judicial (CGPJ), afirmou ontem que a aplicação da pena perpétua a militantes bascos é “plenamente constitucional”. “O nosso tribunal estabeleceu que a pena perpétua pode ser sujeita a discussão, e, passado um cumprimento mínimo da pena, submete-se o sujeito a uma revisão contínua para analisar o seu grau de reinserção”, argumentou.
Fonte: Gara

Polícia francesa detém quatro jovens por pintarem ‘graffiti’, em Donibane Lohitzune


A polícia francesa deteve na segunda-feira, por volta da meia-noite, quatro jovens, um dos quais menor de idade, sob acusação de pintarem ‘graffiti’. A Askatasuna denunciou estas detenções e caracteriza-as como “um novo capítulo na via repressiva que o Estado francês mantém contra o movimento independentista”. A este respeito, recorda “o brutal ataque” policial nas festas de Baiona, as detenções, os julgamentos, as multas e o congelamento de contas de militantes bascos, e a dispersão e o isolamento que sofrem os presos.

Os jovens foram postos em liberdade ontem à tarde, e deverão comparecer perante um juiz a 12 de Setembro. Entretanto, no próprio dia das detenções, cerca de 100 pessoas concentraram-se como forma de protesto em Donibane Lohitzune [Saint-Jean-de-Luz, Lapurdi]. Em Bilbau, 120 pessoas juntaram-se numa concentração a favor dos presos em frente à Sabin Etxea [sede do PNV, erguida sobre a antiga casa de Sabino Arana Goiri].

terça-feira, 12 de agosto de 2008

Contra a desinformação e o bloqueio: «A teoria da peste ou como tudo pode ser ETA»

Como sempre e nos piores casos, a faca da mentira continua a ser de fio duplo e de duplo sentido. Aqui, para desprestigiar os processos de mudança social na América Latina. Ali, exactamente para o mesmo, com o mesmo filão estigmatizador. Dois coelhos de uma cajadada só, o informativo com o hispânico e inquisitorial recurso da teoria da peste.

Choveu mais que muito desde que Alfredo Semprún, o protojornalista – polícia por antonomásia do Franquismo –, publicou alegremente que a ETA dispunha de uma base de submarinos em Baiona. Choveu algo menos, mas sempre sobre o molhado, desde que a francesa Le Nouvel Observateur afirmou sem se despentear que em Hernani cada atentado era celebrado com cordeiros degolados, orgias de sangue e danças rituais. Choveu pouco desde que advogados bascos viram as portas da o­nU completamente fechadas.

O motivo? Um simples fax de inspiração garzonita que impedia a denúncia da violação dos direitos humanos perante organismos internacionais, referindo que tudo é ETA e tudo é a mesma coisa. E eles também. Convém aduzir, neste caso, que depois de três meses de proibição – e sem que o Estado apresentasse prova alguma – voltaram a entrar, com desculpas incluídas.

Por essas rotas de criminalização e bloqueio informativo caminha também hoje a internacionalização do conflito basco. Contudo, após a rotura da última tentativa de processo de paz, esta aposta inquisitorial tem somado números inteiros. Em Setembro passado, a Embaixada espanhola na África do Sul solicitou os serviços de Teo Uriarte e Javier Elorrieta, ambos da Fundación para la Libertad, para neutralizar “a desinformação” que o Congresso Nacional Africano (ANC) possuía sobre o ‘conflito basco’.

Mas esta estratégia não paira apenas sobre governos, movimentos e colectivos de outros povos que prestam atenção ao conflito basco. Também sobre cada uma das personalidades internacionais que tomaram uma posição a favor do diálogo: Cossiga ou Chomsky, Hebe de Bonafini e as Mães da Praça de Maio, o subcomandante Marcos ou Rigoberta Menchú. Rios de tinta que eram balas contra um processo de negociação.

Essa ofensiva actual teve o seu ponto de inflexão diplomática com a chegada de Jaime Mayor Oreja ao Ministério do Interior. O gabinete de Aznar primou nessa linha de fogo informativo, onde as embaixadas se converteram em centros de contra-informação, aplicando um novo plano ZEN (Zona Especial Norte, que Barrionuevo esboçou em 1984) de abastecimento internacional.

E assim a metástase do “também tudo é ETA” aplicada em qualquer ponto do Estado a qualquer forma de dissidência que tenha uma leitura diferente do que se passa em Euskal Herria (o okupa catalão, o mineiro asturiano, o autónomo madrileno e até o desobediente andaluz de Casas Viejas que possuía um manual de euskara) já se fez sentir em águas internacionais. Nada de novo sob o sol, então. Porque não é a primeira vez. Em 1998, o PSOE e Joaquín Almunia plantaram-se no México para equiparar a ETA e o EZLN [Exército Zapatista de Libertação Nacional]. Aquelas declarações serviram fundamentalmente para anular o potencial do posicionamento do Parlamento espanhol, denunciando o massacre de Acteal, no qual morreram 45 civis, 16 deles menores. Ambos os Estados, solidariamente, ocultando os seus crimes, as suas misérias e vergonhas.

Isso é, ao fim e ao cabo, a guerra da informação. E a sua lógica devastadora. Síntese? Embora o sol nunca se ponha no império, noite e dia aumentam a repressão. Em formato de desinformação. Além-mar e espetando estacas na Flandres, em Caracas, Joanesburgo ou Quito. E a sua longa lista de empestados: que somos todos nós, as pessoas que não prestam vassalagem à sempre sinistra razão de Estado.

David FERNÁNDEZ

Fonte: kaosenlared

PP e PSOE negociarão novas medidas para perseguir os ex-presos bascos


Contar com uma das legislações penais mais duras contra a dissidência política não parece ser suficiente para os governantes espanhóis. O PSOE e o PP estudam a possibilidade de subscrever um acordo para que os ex-prisioneiros políticos bascos sejam perseguidos depois de terem cumprido a pena imposta e recuperado a liberdade. As conversações entre ambos os partidos ponderam inclusive a possibilidade do controle policial.

Deverá ser em Setembro próximo que o PP e o PSOE tornem efectivo, mediante uma rubrica, o pacto que andam actualmente a examinar, e que tem como objectivo perseguir os presos políticos bascos mesmo depois de terem cumprido a pena imposta e de terem recuperado a liberdade. Juntamente com a reforma do Conselho Geral do Poder Judicial, a reunião entre José Luis Rodríguez Zapatero e Mariano Rajoy incluía o acordo sobre um conjunto de medidas para perseguir os reprimidos políticos. O PP e o PSOE usaram a libertação de Iñaki de Juana como desculpa para arremeter de novo contra os bascos encarcerados.

O PP, por seu lado, orienta a sua iniciativa sobre as medidas que existem no Código Penal espanhol, mas que, em seu entender, não se aplicam de forma sistemática. O PSOE, contudo, pretende reforçar a figura do juiz. A tomada de decisões sobre os presos contaria, desta forma, com uma maior elasticidade, sujeita ao critério e à interpretação que o magistrado realizar.

Controlados pela polícia
No que estariam de acordo ambas as formações é na escassa margem de manobra que a legislação espanhola faculta, na sua perspectiva, para ampliar as actuações contra os militantes bascos. A este respeito, na informação de ontem realça-se que, graças à reforma do Código Penal de 2003, os bascos agora julgados podem ficar na prisão por um período de 40 anos.

Tanto o PP como o PSOE se opuseram à aplicação da pena perpétua, mas na prática ela já é aplicada aos presos políticos bascos. Seria este o caso dos bascos a quem se aplicou a doutrina que o Supremo Tribunal espanhol estabeleceu há já dois anos, também nessa altura sob o impulso gerado pela iminente libertação de um prisioneiro e sob o efeito de uma enorme campanha mediática.

Entre o conjunto de medidas que colocam como uma possibilidade, além das que se referem ao ressarcimento económico e à proibição de se aproximarem ou viverem perto de alguma vítima, também estudam a hipótese de os ex-presos políticos bascos serem controlados pelas Forças de Segurança do Estado. “O enquadramento legal desta vigilância assenta em que a missão da polícia é prevenir o delito”, refere o El País. Como em todas as medidas anteriores dirigidas contra os independentistas bascos, também neste caso o critério que irá reger a tomada de decisões versará em torno do “arrependimento” do prisioneiro e daquilo que, na perspectiva dos espanhóis, supõe a “reinserção”.
Fonte: Gara

Centenas de piratas conquistam Donostia para exigir umas festas populares

Às primeiras horas da manhã, os comerciantes e os empregados de hotelaria dos estabelecimentos do porto de Donostia andavam a preparar as suas lojas e esplanadas. As pessoas passeavam pela zona ou dirigiam-se para a praia, de toalha na mão. Mas havia algo que não era comum no porto donostiarra, e os transeuntes interrompiam os seus trajectos para contemplar uma imagem inédita durante o resto do ano. Jovens e mais jovens vestidos de piratas iam-se juntando, procedentes dos cinco cantos do mundo.

Como em cada mês de Agosto, de há seis anos para cá, os piratas dispunham-se a abordar Donostia, e a Aste Nagusia [Semana Grande]. Mais de mil corsários adornavam o porto com as suas bandeiras, onde se podiam ler todo o tipo de mensagens reivindicativas. Os jovens preparavam-se para montar os seus barcos, com o objectivo não dissimulado de abordar a Kontxa na parte da tarde. Tábuas, paletes, cordas, cabos de esfregonas, cones, tubos ou qualquer outro instrumento serviam para montar uma jangada. À sua volta, inúmeros curiosos contemplavam aquele espectáculo.

Depois do almoço, alguns piratas continuaram a trabalhar na sua jangada; enquanto outros se dispersaram pelos bares da Alde Zaharra [Parte Velha], onde não faltaram os copos de rum. Com a goela bem quente, às cinco da tarde estavam todos preparados no porto, e com a bandeira da caveira no mastro.

Antes de se lançarem à água, desde o barco principal, onde se encontrava Ezkila, o capitão dos piratas, felicitaram os participantes “por tornar possível que Donostia tenha umas festas populares e de tanto êxito”. Lançaram o txupinazo e gritaram: “Abordatzera!” [À abordagem!].

À saída, a canção dizia “itsasoko pirata gogorrak gara gu” [somos piratas do mar muito fortes], e assim o demonstraram na água. Embora alguns não tenham conseguido sair do porto “por problemas técnicos”, quase todos os aventureiros chegaram ao seu destino. O barco do capitão Ezkila acompanhou os piratas em todo o trajecto. A partir dessa mesma embarcação, a electrotxaranga The Txortains animava a viagem.

Pouco a pouco, as jangadas avançaram pelo mar adentro, e a expectativa aumentou na praia quando surgiram as primeiras tripulações. As duas primeiras balsas, que iam abrindo caminho, conquistaram a Kontxa e ali colocaram a bandeira da caveira, o que provocou grande euforia entre os piratas.
Poucos minutos passados e a praia era sua.

Um êxito cada vez maior

Embora a cada ano pareça que o já alcançado não se pode superar, a abordagem dos donostiarras bate recordes em cada nova edição. E assim aconteceu desta vez, já que se ultrapassou um milhar de participantes.

Em relação ao público, houve grande expectativa nos arredores do porto ao longo de todo o dia de ontem. Sobretudo na hora da abordagem, não havia um lugar vazio no molhe. O caminho que dá acesso a Urgull, e ao longo de todo o gradeamento do porto até à zona da Câmara Municipal, também estava repleto de gente. E também houve quem contemplasse todo o evento na água. Não foi menor a excitação na praia da Kontxa, com a chegada dos piratas e da electrotxaranga.

Entre os espectadores, eram tantos os miúdos como os graúdos. E é de destacar a grande presença de turistas, embora seja mais que certo que não lhes tenha chegado qualquer notícia sobre este acontecimento nos postos de informação turística. Curiosamente, o barco turístico que se dirigia para a ilha de Santa Clara, que em ocasiões como esta costuma ir cheio, circulava meio vazio.

Sacos ecológicos

Por outro lado, para a construção das jangadas, os organizadores procuraram divulgar a utilização de sacos de plástico ecológicos, de encher, em vez dos habituais bidões, “por motivos de contaminação”. De acordo com Iñaki, um dos organizadores, “as pessoas entenderam a mensagem e apoiaram a iniciativa, sendo que a maioria optou por utilizar os sacos ecológicos, em vez dos bidões”.

Para animar o ambiente no porto, e para que o trabalho de construção fosse mais ameno, os piratas montaram uma pequena emissora de rádio no porto, um costume que vem já de anos anteriores.
Contudo, pouco depois de passarem as primeiras canções, a Polícia Municipal apareceu no local com ordens de suspender a emissão de rádio, supostamente porque “o ruído incomodava os moradores e os que estavam a trabalhar”. De acordo com os membros dos Donostiako piratak, “esse argumento é absurdo, tendo em conta que estamos na Aste Nagusia, e que ruído como esse é bastante habitual”. Como consequência, atrasaram o arranque da programação até às 14h, e durante a tarde não foram colocados mais obstáculos à animação.

Janire ARRONDO

Fonte: Gara

segunda-feira, 11 de agosto de 2008

As festas do gelado e dos fogos de artifício... e dos Piratak

“Iruñea tem as peñas; Bilbau, as comparsas; e Gasteiz, os blusas. Mas, o que é que tem Donostia?”. Embora hábil, a questão colocada por uma jornalista a Odón Elorza há quatro anos não chegou para fazer corar o autarca de Donostia. Mostrar-se-á seguramente reconfortado quando, como acontece cada ano desde há mais de um século, vir como o diário Abc traz para a primeira página o arranque “das maiores festas de Espanha”. Aquele era o segundo ano em que, apesar dos contínuos entraves colocados pelo Município, os Donostiako Piratak ofereciam uma alternativa a milhares de cidadãos que renegam umas festas elitistas organizadas por empresas privadas e que não dão espaço à participação da cidadania. Tudo isso, apesar das “barraquinhas” municipais criadas ad hoc para ser “a melhor cidade” em tudo; sempre para que se veja e repare.

Desde que os Bourbons escolheram Donostia, nos finais do século XIX, como destino de férias, aquela cidade que apenas contava com muralhas e areia por todo o lado começou a promover o elitismo. Com as idas e vindas de Franco, o quartel de Ondarreta enchia-se de donostiarras rebeldes; agora, mais de 30 anos depois da sua morte, os que continuam a rebelar-se perante o estabelecido permanecem desprezados.

Seguramente, naquela entrevista Elorza não imaginava a dimensão e o potencial que iria adquirir aquela “abordagem” à Kontxa [ou La Concha], que cativou, e continua a entusiasmar, milhares de donostiarras e guipuscoanos. Embora sem grandes apetites, amanhã o autarca também terá que o reconhecer.

Apesar de a memória de muitos não guardar já as excitações que se viveram com o arrebatamento das txosnas, o alcançado pelos Donostiako Piratak não é de pouca monta: demonstraram que na capital guipuscoana também é possível realizar umas festas organizadas pelo povo e para o povo. E o Município já se apercebeu disso. Depois de dezenas de anos, a Aste Nagusia [Semana Grande] arrancou pela primeira vez num sábado, precisamente quando tinham início os eventos alternativos dos Piratak. A equipa de Elorza continua a fazer orelhas moucas ao apelo que estes jovens fizeram há muito para criar uma comissão de festas entre todos os grupos, organismos, associações e colectivos de Donostia.

O cartaz com quatro gelados a fazer de conta que são foguetes pirotécnicos volta a lembrar que, por infelicidade, as de Donostia continuarão a ser “as festas mais belas de Espanha”... para o Abc. E ainda mais com a bandeira espanhola que o PSE impôs no edifício da Câmara Municipal. Mas que não adormeça o vigia, porque esta semana poderá ser a bandeira da caveira a ondear no mastro municipal.

Gari MUJIKA

Fonte: Gara

«A ikurriña deve ondear porque democraticamente é assim, não por teimosia minha»



Peio GURBINDO, autarca de Atarrabia (Nafarroa Bai), entrevistado por Ander PEREZ

A 28 de Setembro de 1977, os habitantes de Atarrabia decidiram em referendo que a ikurriña é uma das “bandeiras oficiais” da localidade. Como viveu essa data?

Eu tinha então 13 anos, mas lembro-me muito bem porque eram tempos politicamente especiais, que vivíamos muito intensamente. Tínhamos aprendido a conviver com a ikurriña, apesar de ter estado ilegalizada, e víamo-la como algo nosso, algo natural. Hilario Eransus, mesmo sendo um autarca posto “a dedo”, teve uma atitude democrática a toda a linha, que foi a de realizar um referendo. Lembro-me de o ter comemorado com os meus amigos.

O facto de içar a ikurriña no mastro no 30.º aniversário daquele referendo foi uma mostra de respeito pela decisão popular?

Pareceu-me uma data muito bonita para que a ikurriña voltasse a ondear, mesmo sem ser na Câmara Municipal, porque a lei – com que não concordo – não o permitia de forma oficial, mas sim na nossa praça mais emblemática. Tem uma carga simbólica, naturalmente; recorda-se o referendo de 1977 e o mais puramente democrático, que é consultar o povo sobre os temas que interessam aos habitantes.

Após a sentença, antepõe-se a legalidade à legitimidade da decisão popular?

Colocámos a ikurriña porque creio que é uma bandeira do povo de Atarrabia, um símbolo como o é o escudo da localidade. Além disso, o referendo de 1977 foi votado em sessão plenária municipal em 2007, pela maioria dos representantes dos habitantes de Atarrabia, que voltaram a
reconhecer como sua a ikurriña e, de passagem, rejeitaram a Lei de Símbolos [de Navarra]. A sentença não diz que estamos a infringir nenhum artigo, pelo que se trata de uma sentença totalmente política, porque só diz que estamos “a burlar o espírito da lei”. Portanto, julgam-se intenções. A sentença, para além do mais, diz textualmente “certamente não ondeia no edifício oficial”, pelo que nos dá razão. Iremos recorrer dela e estamos a estudar hipóteses para o caso de o recurso ser denegado.


Pensaram nalgum mecanismo para que a sociedade de Atarrabia se possa posicionar, tal como o fez em 1977, em relação à ikurriña?

Estamos à procura de soluções, mas não posso adiantar nada para não mostrar o jogo ao inimigo. O que fica claro é que o povo de Atarrabia aprova a ikurriña como sua. A ikurriña deve ondear em Atarrabia porque democrática e legitimamente tem que ser assim, não por teimosia minha.


Fonte: Gara

Movimento Pró-Amnistia denuncia atitude da Ertzaintza em relação ao preso Mikel Ibañez

O preso político elgoibartarra Mikel Ibañez, que se encontra gravemente doente e que passou as últimas semanas no Hospital Donostia, em virtude dos tratamentos médicos que o seu estado requer, recebeu alta e vai continuar a cumprir a pena de prisão em regime atenuado no seu domicílio familiar.

Ao ser posta ao corrente deste facto, a Ertzaintza pediu à Audiência Nacional que coloque ao prisioneiro basco uma pulseira de controle telemático, com o argumento de que assim se evitariam períodos de vigilância prolongados junto ao seu domicílio e se “diminuiria o risco de um atentado contra os agentes de guarda”. A Procuradoria apoiou a petição da polícia autonómica, enquanto os representantes jurídicos de Ibañez a rejeitaram, recordando que, dada a gravidade do seu estado de saúde, não existe risco de fuga, requisito imprescindível para que se adopte uma medida deste calibre. O juiz dará a conhecer a sua decisão nos próximos dias.

O Movimento Pró-Amnistia denunciou com dureza a atitude da Ertzaintza, e afirmou que “o pedido de imposição de uma pulseira telemática a uma pessoa que sofre de cancro nos mostra com claridade onde se situam a humanidade e a ética deste corpo policial”.

Na sua perspectiva, o objectivo desta pulseira “não é garantir a segurança dos ertzainas, mas fazer chantagem sobre o preso, e pressioná-lo”. “O PNV e o tripartido dizem-nos, com atitudes como esta, que se juntam à política cruel e violenta que se está a levar a cabo contra os presos políticos bascos”, acrescenta o Movimento Pró-Amnistia numa nota de imprensa, criticando o facto de, “em vez de reclamarem a libertação dos presos que se encontram nas prisões em situações de extrema gravidade”, as formações que governam em Lakua adoptarem atitudes como a agora denunciada.

«Olhar para o outro lado»
Para o Movimento Pró-Amnistia, estes partidos estão constantemente a “olhar para outro lado, evitando encarar as barbaridades” que se estão a cometer nas prisões – entre as quais cita a prisão perpétua, a situação dos presos gravemente doentes, o isolamento, os espancamentos e a política de dispersão –, e “quando é chegada a sua vez de fazer algo relacionado com este tema, fazem-no em prol desta política penitenciária selvagem”.

“Os dois estados insistem na aposta para levar os presos políticos bascos a morrer nas prisões, e o que tem vindo a acontecer nos últimos meses prova que têm intenção de seguir por essa via”, acrescentam na nota de imprensa, mencionando os presos aos quais se aplicou a doutrina da pena perpétua, o aumento do número de presos doentes e os acidentes causados pela política de dispersão.

Perante isto, o Movimento Pró-Amnistia apela à sociedade basca para “fortalecer e multiplicar” o trabalho em defensa dos direitos dos perseguidos políticos bascos.

Fonte: Gara

Tortura de Ailande nas mãos da Guarda Civil – “Quando me disse a hora, perguntei-lhe de que dia”


O dia 4 de Agosto é uma data especial para os gasteiztarras, mas para Ailande Hernáez o dia 4 de Agosto de 2008 será um dia seguramente para esquecer. Apenas sete horas depois do início das festas, quando se encontrava na praça bastante central de Fariñas, este jovem viu como um número indeterminado de indivíduos o abordou, o atirou ao chão e lhe começou a bater e a insultar. A partir daí, acabaram-se as festas e começou um dia e meio de pesadelo, do qual está agora a tentar recuperar, na companhia dos seus seres queridos.

Os seus captores acreditavam, em qualquer caso, que o tormento do jovem gasteiztarra fosse ainda mais longo e cru, mas o juiz da Audiência Nacional Santiago Pedraz levantou o regime de incomunicação, uma decisão infelizmente insólita quando se trata de um detido basco, e os planos dos guardas civis que tinham Hernáez em seu poder viram-se parcialmente frustrados.

A actuação deste magistrado, que já foi objecto de outras campanhas pouco favoráveis, recebeu duras críticas por parte da caverna mediática e de responsáveis policiais, como o secretário geral do Sindicato Unificado da Polícia (SUP), José Manuel Sánchez Fornet, que afirmou na quinta-feira passada que “deveriam atirar cocktails molotov todos os dias contra a casa do juiz Pedraz, que era para ver como o interpretava”. Nem é preciso dizer que, se for outro que não Sánchez Fornet ou uma personagem do género a atrever-se a dizer que há que atirar cocktails a um juiz (ou a quem quer que seja), já sabe onde vai parar directamente. O próprio magistrado tomou conta do assunto, e na sexta-feira interpôs uma queixa perante o Conselho Geral do Poder Judicial, tendo inclusive os sectores mais conservadores da magistratura qualificado como “inapropriadas” as declarações do polícia.

«Um subiu para cima de mim e começou a saltar»

Em qualquer caso, um dia nas mãos da Guarda Civil pode ser toda uma vida, como o próprio Hernáez relata ao GARA no dia seguinte ao regresso a Gasteiz, a sua casa.
Conta que, após a violenta detenção, “levantaram-me, atiraram-me pelos ares e meteram-me dentro”. Como lhe taparam o rosto, não pode especificar a que edifício da capital alavesa foi conduzido nesse momento, embora se lembre que havia muita gente à sua volta, e descreve, ainda afectado, o que ali se passou. “Conforme entrámos, atiraram-me outra vez para o chão e começaram a provocar-me. Um deles subiu para cima de mim e começou a saltar sobre as minhas costas, enquanto estava de barriga para baixo, e não pararam de me ameaçar, dizendo-me que já tinha lixado tudo, e que ia apanhar a valer”. Este jovem gasteiztarra também precisa que lhe enfiaram um saco na cabeça e que o baixaram até ao nariz, ameaçando fazê-lo descer pela cabeça abaixo caso não falasse, e que lhe puseram uma manta à volta do pescoço e a apertaram até ao ponto de asfixia...

Para além disso, explica que os seus captores procuraram confundi-lo sobre o corpo policial a que pertenciam, já que, se no momento da detenção gritaram “Forças de Segurança do Estado” e logo explicaram que eram guardas civis, ao longo do seu período de cativeiro também lhe disseram que eram ertzainas.

A Hernáez, que nas horas que esteve nas mãos da Guarda Civil passou por dois centros hospitalares, em Gasteiz e em Madrid, também não lhe indicaram onde se encontrava, até que o conduziram à capital espanhola e lhe disseram que tinha sido levantado o regime de incomunicação. Questionado sobre o tempo que tinha passado entre a detenção e o momento em que lhe disseram que não estava sob incomunicação, a resposta é contundente: “Umas quantas tareias”. Porque é nesse espaço de tempo que os maus tratos foram mais vincados e as ameaças, mais duras. “Meteram-me numa espécie de calabouço, onde me interrogaram, sempre com ameaças, procurando que implicasse outras pessoas. Eles mesmos me davam nomes, dizendo que já sabiam tudo, que tudo o que dissesse ia melhorar a minha situação. Suponho que será o típico dentro do que costumam dizer”, refere.

Tudo isto aconteceu em Gasteiz, seguramente coincidindo no tempo com o momento em que os habituais porta-vozes políticos e institucionais se aproximavam dos microfones para condenar o ataque à Subdelegação do Governo espanhol, ao qual fontes policiais ligaram a detenção deste jovem, algo que ele negou perante o juiz. Sobre os maus tratos – logo confirmados – que Ailande podia estar a sofrer não disseram nada.

«Queremos conhecer-te»

Quando lhe anunciaram que iam para Madrid, “disseram-me que ia flipar, que aquilo que me tinham feito não era nada comparado com o que iam fazer”. Foram num automóvel, quatro agentes e ele, e conduziram-no a uma esquadra, embora ali “já começassem a mudar de tom”. Explica que a partir de então insistiram no pedido de colaboração.

Este é um dos aspectos mais escabrosos do relato, já que lhe chegaram a marcar datas e lugares de encontro para se pôr em contacto com eles, no caso de aceder a colaborar. “Diziam-me que ‘já chega de falares contra a parede e nós contra a tua nuca’, ‘queremos falar cara a cara’, ‘queremos conhecer-te um pouco melhor’. Eu respondi-lhes que já sabiam quem era – prossegue o jovem –, ao que me responderam que ‘sim, sabemos quem és, mas não te conhecemos’”. Afirma também que os guardas civis asseguraram que “fazemos isto com um monte de gente. O que acontece é que ninguém se apercebe, porque nós somos profissionais, dedicamo-nos a isto. E isto é o mais normal, todo o mundo passa por isto e uma percentagem, sim, cede”. Estas palavras eram acompanhadas, claro, por duras ameaças, que tinham a ver com o que lhe iam fazer se não colaborasse.
Opina ainda que, à vista dos comentários que lhe fizeram, tê-lo-iam andado a seguir.

A advogada de Hernáez chegou à esquadra por volta das 22h de dia 5, terça-feira, mas foi só duas horas depois que pôde falar pela primeira vez com o seu cliente. Esteve duas horas à espera no mesmo edifício em que continuavam a interrogar Ailande. À meia-noite pôde finalmente falar com o jovem, ou seja, 23 horas depois de se ter dado a detenção.
Neste momento do relato, vem à tona uma mostra do aspecto traumático da sua experiência. Afirma que perguntou à sua advogada que horas eram, para se orientar, e quando ela lhe respondeu que era meia-noite, ele replicou: “mas de que dia?”. É que pensava que era quinta-feira, quando ainda era terça.

A declaração policial realizou-se na presença da advogada, com uma pessoa a tomar notas e outras duas encapuçadas, atrás. “Isso contou-me a minha advogada, porque eu não conseguia olhar para trás em momento algum. Em todas as mudanças de um sítio para o outro, para o que quer que fosse, ordenavam-me que olhasse para o chão, com uma camisola ou uma manta na cabeça, ou com um verdugo a tapar-me a cara”, recorda.

Concluída a declaração policial, e já à espera de comparecer perante o juiz, o trato foi diferente, e até lhe trouxeram uma sandes, “que me custou uma eternidade a comer”.
Na presença de Pedraz, denunciou os maus tratos sofridos, e assinala que se mostrou surpreendido ao ver que o magistrado pelo menos prestava atenção às suas palavras e fazia gestos à secretária judicial para que não o interrompesse. Na sua apreciação, foi “correcto”.
Após a declaração, foi novamente para os calabouços, à espera da decisão do juiz. Este impôs-lhe uma fiança de 6000 euros. Quando os seus parentes abonaram esta quantia, pôde regressar a Gasteiz, às suas ruas, de onde um número indeterminado de indivíduos o tinha levado um dia e meio antes.

Iker BIZKARGUENAGA

Fonte: Gara