sexta-feira, 26 de março de 2010

Ofensiva contra a esquerda «abertzale»: Governo espanhol vai aprovar hoje projecto para que esquerda «abertzale» não concorra às eleições

Tasio (Gara)
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O ministro espanhol do Interior, Alfredo Pérez Rubalcaba, comunicou ontem à tarde ao coordenador das Liberdades Públicas e da Justiça do PP, Federico Trillo, que o Conselho de Ministros aprovará hoje um projecto de lei para evitar que a esquerda abertzale concorra às eleições, segundo fez saber a Europa Press.

A Audiência Nacional espanhola decide manter Otegi na prisão

Editorial do Gara: Não é razão de estado, é pura irracionalidade

A agência Europa Press informou, citando fontes do PP, que o ministro do Interior, Alfredo Pérez Rubalcaba, comunicou ontem à tarde ao coordenador das Liberdades Públicas e da Justiça desse partido, Federico Trillo, que hoje levará a Conselho de Ministros um projecto de lei que contempla mudanças legislativas para impedir «por todas as vias legais e do Estado de Direito» que a esquerda abertzale possa concorrer às eleições.

De acordo com essa agência, Rubalcaba não deu a conhecer ao PP o texto que o Governo espanhol elaborou mas garantiu-lhe que responde aos objectivos perseguidos pelo PP.

Anúncio de Conde-Pumpido
O anúncio das reformas que o Executivo do PSOE planeia foi feito ontem de manhã pelo procurador-geral do Estado, Cándido Conde-Pumpido, que pediu atenção «às reformas legislativas em que o Governo está a trabalhar».

Respondia desta forma a questões de jornalistas sobre as declarações do eurodeputado do PP Jaime Mayor Oreja sobre a existência de uma aliança entre o Governo espanhol e a ETA para «enfraquecer Espanha».

Poucas horas depois, numa entrevista à Europa Press, o secretário de Estado da Cooperação Territorial, Gaspar Zarrías, confirmava que o Governo do PSOE iria propor «proximamente» alterações à Lei de Partidos, à Lei Orgânica do Regime Eleitoral (LOREG) e à nova lei do Governo local, para evitar que «alguém que tenha a mais pequena mácula de apoio à violência terrorista» possa concorrer a qualquer processo eleitoral.

«A decisão do Governo está tomada, as instruções do presidente do Governo aos restantes membros do gabinete são claras e contundentes para evitar que se verifique a entrada de qualquer partido e qualquer candidato», afirmou.

Segundo disse, as instruções de Rodríguez Zapatero incluem também o estudo de «mecanismos para que, no caso de algum escapar, e isso for posteriormente comprovado, se possa actuar contra ele».

Zarrías não quis revelar detalhes da reforma da Lei de Partidos que vão propor nem das alterações no regime eleitoral mas insistiu na ideia de que o Executivo espanhol fará tudo o que estiver ao seu alcance para evitar que a esquerda abertzale concorra às eleições.

Sobre o projecto da nova lei do Governo local, a cargo do seu Departamento e que está «praticamente concluído», disse que o PSOE está disposto a estudar a proposta do PP para que as Cortes espanholas ou os tribunais, e não apenas o Conselho de Ministros, possam dissolver municípios.

Zarrías referiu que esperam apresentar todas as propostas aos grupos políticos antes de Junho. Admitiu que alguns mecanismos poderão chocar com a Constituição espanhola, que estabelece que todos os cidadãos devem poder aceder a cargos públicos em condições de igualdade.

Conde-Pumpido e Gaspar Zarrías deram assim corpo às novas medidas avançadas na véspera por Alfredo Pérez Rubalcaba, que afirmou que iam ser tomadas «muito brevemente» para «aperfeiçoar» a luta, que «é de todos», contra a ETA e a esquerda abertzale.

Enquadram-se, para além do mais, na linha da proposta apresentada há duas semanas pelo PP. O presidente desta formação partidária na CAB, Antonio Basagoiti, disse que estava a elaborar uma iniciativa para propor ao PSOE uma reforma da Lei de Partidos que impeça a esquerda abertzale de concorrer às eleições municipais e forais do ano que vem.
Fonte: Gara

Sugestão: pequeno salto do legislativo para o judicial: «Não acreditam na justiça espanhola?», artigo de Mikel Arizaleta, em Kaosenlared.net
"Os juízes e a justiça espanhola continuam a ser o que foram: uma coutada caciquista da extrema-direita e um campo de vingança e de ajuste de contas pessoais."

Jon Anza, presos políticos, solidariedade, (neo)fascismo


Jon Anza recordado no 34.º aniversário do golpe de estado na Argentina
Ontem, dia em que assinalava o 34.º aniversário do golpe de estado que instaurou a ditadura militar na Argentina, houve inúmeras mobilizações e actos no país. Membros da diáspora basca participaram nessas mobilizações e, com a colaboração de muitos argentinos, denunciaram o desaparecimento e assassinato de Jon Anza, tendo exibido uma faixa a esse respeito e distribuído panfletos.
Fonte: askatu.org

De Urola Kosta até à prisão de León


300 km de viagem para levar apoio e carinho aos familiares nas prisões.

Mandam retirar o nome de Txiki e Otaegi a uma rua
O tribunal Contencioso Administrativo número 2 de Bilbau decretou a retirada cautelar do nome de Txiki e Otaegi a uma rua de Zornotza, alusiva aos militantes da ETA Jon Paredes, Txiki, e Ángel Otaegi, últimos fuzilados pelo franquismo. Na opinião do tribunal, a placa e o nome da rua constituem uma «exaltación a terroristas en homenaje y concesión de méritos que puede provocar inseguridad física y sicológica a las víctimas».
Fonte: Gara

Em Londres, solidariedade com Garikoitz Ibarluzea


Last Monday The 'Friends of the Basque Country' group in London made a rally in front of City of Westminster Magistrates' Court in support of Garikoitz Ibarluzea. Gari has been taken to Court under a European Arrest Warrant alleging “terrorist offences”. Friends of Mr Ibarluzea provided information about his case and called for his release in a colourful protest following the ancient ways of the Basques.
Here you can read Garikoitz's friends' demands:
"We demand that the Spanish government ends its campaign of criminalisation and political persecution against organisations and individuals that are in favour of Basque independence.
We support the right of Garikoitz Ibarluzea not to be persecuted by the Spanish government for his political ideas.
We call on the British Courts to immediately reject the extradition requests and to refuse to collaborate with the Spanish government’s political persecution of Garikoitz Ibarluzea.
We support the right of Garikoitz Ibarluzea to live freely in London."
Fonte: askapena.org

Pedem ao reitor da UPV que não assine o acordo com o Departamento do Interior de Lakua


Representantes da comunidade universitária pediram na quarta-feira ao reitor da UPB/EHU, Iñaki Goirizelaia, que não assine o acordo previsto sobre segurança com o Departamento do Interior de Lakua. Como explicaram, o acordo permitiria à Ertzaintza entrar no recinto universitário sem ter de pedir qualquer autorização, como acontece agora.

O Conselho de Governo da UPB/EHU terá aprovado a iniciativa, mas ainda não assinou o acordo. Por isso, um grupo de estudantes, professores, trabalhadores e representantes de diversos agentes compareceram em frente à Faculdade de Ciências Sociais de Leioa para pedir a Goirizelaia que não o assine.

Afirmaram que, com base neste acordo, a Polícia autonómica poderia efectuar investigações, aceder à base de dados da Universidade e utilizar as câmaras de videovigilância. Em seu entender, o «controlo social» não deveria ter lugar na universidade, que também não deveria recorrer à Ertzaintza para resolver conflitos, pois devia ser «um exemplo para a sociedade em democracia e na resolução dos conflitos através do diálogo».

Mobilizações e fechamentos
O campus de Leioa era também ontem o centro das reivindicações estudantis, já que a Ikasle Abertzaleak convocou uma jornada de mobilizações contra Bolonha. Havia uma manifestação convocada para a praça Mikel Laboa. Para além disso, na Faculdade de Belas Artes também estão a realizar um fechamento pela mesma razão, entre outras actividades.
Por seu lado, na Faculdade de Ciências Sociais estão reivindicam um espaço para estudantes autogerido. A assembleia estudantil da Faculdade de Ciências também realizou um encerro e um jejum, que terminava ontem, em se que exigia a possibilidade de fazer os estudar inteiramente em euskara. Cerca de trinta estudantes secundaram esta iniciativa.

Manex ALTUNA
Fonte: Gara

quinta-feira, 25 de março de 2010

Comentário político na Infozazpi Irratia



Floren Aoiz na Info7

Floren Aoiz comenta as declarações de Mayor Oreja (PP) segundo as quais o presidente do Governo espanhol, José Luis Rodríguez Zapatero, estaria a negociar ou a dialogar com a ETA; a iniciativa popular Hamaika Bil Gaitezen; e a inauguração do Museu do Carlismo, em Lizarra (Nafarroa).

34 610 vozes, uma responsabilidade que a Batera leva a sério


Os promotores da Batera sentem-se «responsáveis» pelos resultados da consulta popular, que decorreu nos dias 14 e 21 Março, sobre a criação de uma colectividade territorial para Ipar Euskal Herria. E é por isso que decidiram que as próximas etapas só devem ser organizadas após uma assembleia-geral, que terá lugar no dia 17 Abril, às 9h, em Ezpeleta (Lapurdi). Com 32 000 assinaturas recolhidas no Outono passado e 34 610 votos expressos na consulta popular, os promotores não pensam ficar «por aqui», como expressaram na terça-feira numa conferência de imprensa que decorreu em Baiona.

O resultado da consulta popular é «uma vitória da democracia», consideram os membros da plataforma Batera. Partindo daqui, pedem a todos os responsáveis políticos e aos eleitos, sejam deputados ou eleitos municipais, «que dêem uma resposta à questão que foi colocada aos cidadãos». Jean-René Etchegaray, vice-presidente da Câmara de Baiona, e Sauveur Bacho, autarca de Arberatze (Nafarroa Beherea), referiram-se aos próximos actos eleitorais: «não se pode ser candidato sem se dizer claramente o que se pensa sobre o tema».

Subjacente a esta determinação está a satisfação com os resultados da consulta, que os promotores da Batera não esconderam. O município que teve a taxa mais elevada de participação (65%) foi Bunuze (Nafarroa Beherea), enquanto Angelu (Lapurdi) se encontra no outro extremo (5,9%). A taxa varia consoante a visibilidade do local de voto, como salientou Martine Bisauta, vereadora de Baiona. Os promotores da Batera agradeceram ainda aos 1164 voluntários, aos 90 autarcas e aos artistas que tornaram possível esta iniciativa.
G.T.
Fonte: le_journal_Pays_Basque-EHko_kazeta

O blog relacionado com o caso Anza foi censurado

O blog relacionado com o desaparecimento e a morte de Jon Anza - Zereginduzuejonekin.wordpress.com - foi censurado, informou o Movimento pró-Amnistia.
Este espaço, agora silenciado, surgiu depois do aparecimento do corpo de Jon, com o propósito de recolher mais informações e exigir mais explicações.
«Estamos perante uma nova tentativa de silenciar o caso Jon Anza», afirmou o movimento anti-repressivo, acrescentando ainda que se pretende negar «qualquer forma de expressão que denuncie a guerra suja e o assassinato de Jon».
Fonte: askatu.org

Presos políticos bascos e solidariedade


Recepção calorosa a Ainara Vázquez, em Astigarraga
A ex-presa política vasca Ainara Vázquez foi calorosamente recebida no sábado passado em Astigarraga. O ongi etorri teve de ser realizado numa adega de sidra da localidade guipuscoana, já que efectivos da Ertzaintza ocuparam a praça em que estava prevista a realização do acto.
Vázquez saiu em liberdade no final de Fevereiro depois de pagar uma fiança de 10 000 euros. Foi detida em Astigarraga em Junho de 2009 e denunciou maus tratos durante o período de incomunicação.
Sem saber nada de Iparragirre
Familiares do preso político de Ondarroa Ibon Iparragirre denunciaram anteontem ao Gara que estavam há quatro dias sem saber onde aquele se encontra.
Segundo disseram, no sábado foram a Soto del Real visitá-lo e, depois de terem passado por quase todos os controles, foi-lhes dito que tinha sido transferido na parte da manhã e que não lhes podiam dizer para que prisão tinha ido.
Os familiares criticaram o facto de os terem obrigado a «fazer a viagem em vão», com o argumento de que no domingo isso não era possível, evitando assim que outros familiares de presos os avisassem que tinha sido transferido. Ao que parece, na prisão terão ouvido que o seu familiar preso fora transferido para Sevilha, mas, depois de terem perguntado por ele nessa prisão, disseram-lhes que não estava ali.
Por outro lado, anteontem à tarde 150 pessoas juntaram-se em frente ao Teatro Arriaga de Bilbo pelos presos.
Fonte: Gara
Em Leitza, celebra-se o Elkartasun Eguna no próximo sábado
Prepararam um programa para o dia inteiro, em que se incluem o almoço, uma kalejira e concertos. Apela-se à participação dos cidadãos.
Fonte: askatu.org

Euskara: novo dicionário e observatório do léxico

A Euskaltzaindia / Academia da Língua Basca apresentou o Diccionario Unificado Documentado / Hiztegi Batu Oinarriduna e o Observatorio del Léxico / Lexikoaren Behatokia, que apresenta a partir de hoje [ontem] na sua página de Internet. (Gara / Monika DEL VALLE/ARGAZKI PRESS)
Mais informações / Informazio gehiago: http://www.euskaltzaindia.net/

quarta-feira, 24 de março de 2010

Investigação sobre o desaparecimento e morte de Jon Anza: O procurador de Toulouse realça que todas as hipóteses estão em aberto


A Procuradoria de Baiona passou na semana passada para o procurador de Toulouse, Michel Valet, o dossier de Jon Anza, de forma a que um juiz de instrução determine as circunstâncias que rodearam a morte do cidadão basco. Em declarações ao Gara, Valet afirma que a juíza nomeada, Myriam Viargues, tem pela frente um «caso em aberto».

«Não posso efectuar declarações porque o processo está sob segredo de justiça, só posso confirmar que a juíza tem já em seu poder toda a informação sobre este caso», afirma ao Gara o procurador de Toulouse, Michel Valet, que na semana passada recebeu das mãos da sua homóloga de Baiona, Anne Kayanakis, um complicado dossier judicial.

«O caso Anza está em Toulouse porque tudo neste caso conduz até esta cidade, pelo que se coloca uma questão de competências», explica o procurador.

Segundo assinala Valet, depois de se nomear um juiz de instrução, «a família poderá aceder a toda a informação referente a esta investigação».

O procurador confirma que a juíza de instrução encarregue do caso é Myriam Viargues. Questionado sobre a solicitação feita pela família Anza para que não se descarte nenhuma hipótese e que se investigue também o eventual sequestro do seu familiar por forças de segurança espanholas, o procurador responde: «A questão está em aberto, e agora cabe à juíza fazer luz sobre o tempo que decorre entre o desaparecimento de Anza até hoje».

Antes e depois da morte
Com esta última declaração, o procurador de Toulouse faz suas as linhas de trabalho apontadas por Kayanakis, que afirmou na sua última conferência de imprensa sobre o caso que durante a fase instrutória não será abordada exclusivamente «a dimensão médico-legal» da morte de Anza, mas que se tratará de esclarecer, «para afastar qualquer suspeita», o que aconteceu entre 18 de Abril de 2009, quando Jon Anza chega a Toulouse - algo que a Polícia corrobora agora - e o dia 29 de Abril, quando o militante abertzale é recolhido praticamente desfalecido numa rua central da cidade occitana.

O relatório da Polícia Local
Aquilo a que Kayanakis chama «a dimensão médico-legal» do «caso Anza» continua a ser desconhecida para a família, que anteontem à tarde continuava à espera de receber o relatório da autópsia realizada no dia 15 em Toulouse. A médica de confiança da família não pôde estar presente durante a sua realização, algo que a procuradora Kayanakis justifica como sendo um procedimento legal e que foi questionado pelos advogados da família, bem como por peritos da prática forense à escala europeia.

A advogada Yolanda Molina vai mais além e assevera que não há lei que proíba a presença de uma pessoa próxima da família na autópsia. «Tudo depende da vontade, e neste caso é evidente que Kayanakis não quis», explica.

Ela mesma esteve presente na autópsia realizada em Paris à presa política donostiarra Oihane Errazkin, que apareceu enforcada em Julho de 2004 na prisão de Fléury-Mérogis.

A família Anza atribui tanta ou mais importância aos relatórios médicos e às fichas clínicas anteriores ao falecimento do seu familiar que à autópsia. A este respeito, a edição de Toulouse do diário Libération publicada no sábado passado avança um dado inquietante e que a procuradora de Baiona ocultou até agora.

No relatório dos polícias locais que recolheram Anza consta que este sangrava da boca e que os bombeiros que chegaram ao local vinte minutos mais tarde «consideraram que havia uma hemorragia interna», levando-o para o Hospital Purpan, onde morreu no dia 11 de Maio.

Maite UBIRIA

a lei e a desculpa
Yolanda Molina presenciou a autópsia realizada em Julho de 2004 à presa donostiarra Oihane Errazkin. A advogada desmente Kayanakis, que se escudou na lei para impedir que um representante da família Anza fizesse o mesmo.
sangue na boca
O relatório dos polícias municipais, que são os primeiros a socorrer Anza no dia 29 de Abril de 2009 num boulevard central de Toulouse, constata, segundo pôde ler um jornalista do LibéToulouse, que este sangrava da boca.
sabotagem em Gros
Um anónimo reivindicou, pela morte de Anza, um ataque no bairro donostiarra de Gros contra um centro que, segundo disse, dá cursos para escoltas, polícias e militares. Ocorreu no dia 17 de Março à noite, precisou.

O passaporte estava nos perdidos e achados
Desde que o corpo de Jon Anza apareceu, uma das perguntas que paira no ar é como é que foi possível que o seu cadáver tenha permanecido dez meses numa morgue sem que ninguém o tenha identificado. Quando Anza partiu de Baiona, a 18 de Abril de 2009, levava consigo o seu passaporte. A magistrada Anne Kayanakis referiu-se por diversas vezes à falta de documentos de identificação como uma dificuldade de monta para os investigadores, embora seja conveniente recordar que nem sequer a localização do bilhete de ida e volta (Baiona-Toulouse-Baiona) lhes serviu para situar a origem do desaparecido em Baiona e colocar questões nessa cidade. À medida que os meios de comunicação vão apresentando mais detalhes sobre o caso, é cada vez mais óbvio que a investigação que Kayanakis passou para Toulouse não se fez com a devida solvência. De outra forma torna-se incompreensível a informação publicada no fim-de-semana no Sud-Ouest, e que uma empregada dos perdidos e achados de Toulouse confirmou anteontem ao Gara: o passaporte de Anza foi entregue nesse serviço - de acordo com certos meios, em Maio de 2009 - mas a Polícia só perguntou por ele «há alguns dias». M.U.
Fonte: Gara

15 de Maio, manifestação para exigir o direito a viver em euskara em Nafarroa

Vários anos depois de outros protestos massivos em defesa do euskara, a política do Governo navarro voltará a ser confrontada nas ruas no dia 15 de Maio. Anteontem já se reuniram quase uma centena de euskaltzales para o anunciar. «Não queremos ser cidadãos de segunda», advertiram.

No início desta década, a política do Governo da UPN contra o euskara foi criticada nas ruas de Iruñea em várias mobilizações de grande envergadura, nas quais se apresentaram números de participação a rondar as 27 000 pessoas. Agora, num momento em que os ataques à língua se intensificam, os membros do Kontseilua voltam a apelar à mobilização. A data escolhida é 15 de Maio. E apresentação do acto, em que estiveram presentes quase uma centena de euskaldunes e euskaltzales conhecidos, faz vaticinar uma manifestação poderosa.

Uniram-se em torno a um denominador comum, que se plasma no lema: «Nafarroan euskaraz bizitzeko eskubidea» [Direito a viver em euskara em Nafarroa]. Justificam-no dizendo: «porque não queremos ser cidadãos e cidadãs de segunda, porque o euskara e os euskaldunes necessitam de respirar e porque é questão de respeito».

O manifesto-base desta convocatória, que foi lido por Oskar Zapata (Topagunea) e Helios del Santo (AEK), incide na crítica à atitude do Governo de Miguel Sanz. «A sua política linguística não vai normalizar o euskara, não garante os direitos linguísticos dos navarros e das navarras. Na actualidade, o Governo de Nafarroa governa contra eles - existe uma injustiça maior?». Acrescenta que «tudo seria mais simples se déssemos passos firmes em direcção à normalização, mas para isso são necessários outro estatuto político, outra política».

«Hoje é impossível»
O texto expressa uma sensação de clara saturação, e mais ainda após as últimas iniciativas do Executivo da UPN, «suprimindo licenças e subsídios, marginalizando o euskara dentro do sistema educativo, distribuindo ajudas económicas irrisórias a quem desejar aprender euskara, asfixiando os euskaltegis, limitando as iniciativas e os actos em euskara... Faz o possível e o impossível para sufocar o euskara em qualquer lugar e momento», especificam.

Os convocantes concluem que hoje em dia «em Nafarroa é impossível viver em euskara. Os euskaldunes são tratados como cidadãos e cidadãs de segunda. Não obstante, Nafarroa necessita dos falantes de basco, a pluralidade enriquece Nafarroa. A maioria da sociedade rejeita tanto a exclusão linguística como as agressões em Nafarroa».

A pluralidade é também interna neste caso. Em torno desta convocatória reuniram-se euskaldunes ou simples euskaltzales de múltiplos âmbitos, zonas, profissões ou ideologias. Para referir só alguns nomes, Iñaki Perurena, Pello Mariñelarena, Sagrario Aleman, Urko Aristi, Gaizka Aranguren, Nestor Esteban, Mikel Sorauren, Patxo Abarzuza, Jon Arretxe, Petti, Patziku Perurena, Julio Soto, Mikel Soto, Castillo Suarez, Estitxu Fernández, Juan Kruz Lakasta, Nestor Salaberria, Iñaki Lasa, Paul Bilbao, Fertxu Izquierdo, Joxe Anjel Irigarai, Juanja Iturralde, Joxema Leitza...

Realçaram o facto de reivindicarem direitos. Não só a falar ou a estudar na sua língua, mas também «a comprar, a receber a publicidade e a etiquetagem em euskara, a receber a informação em euskara, a praticar desporto em euskara e a desfrutar em euskara do tempo de lazer».

O Kontseilua tomou a iniciativa, depois de receber numerosos pedidos. É que havia vários anos que não fazia uma convocatória deste tipo e com esta dimensão em Iruñea. Os convocantes proclamam que «não temos intenção de ficar imóveis face às graves agressões que se sucedem». E acrescentam ainda na seu apelo que «estamos convencidos e convencidas de que cada um de nós, os movimentos sociais e cada pessoa, temos tarefas concretas».
Fonte: Gara via kaosenlared.net

Euskaldun: falante de língua basca / Euskaltzale: amante da língua basca

Ver também: «O Euskarabidea mostra a face mais negra da política linguística da UPN», primeira parte de uma reportagem sobre o Euskarabidea, em nafarroan.com

Bilbaínos de diversos âmbitos convocam manifestação pela ikurriña para dia 26


Um grupo de pessoas de Bilbo, que pertencem a distintas sensibilidades políticas mas coincidem em reivindicar que Euskal Herria é uma nação e necessita de um estado, convocaram para sexta-feira, dia 26, às 20h, uma manifestação entre o Arriaga e a Câmara Municipal, com o lema «Gurea ikurriña, independentzia».

O apelo foi feito na segunda-feira pela arquitecta Aitziber Ibaibarriaga e o ex-vereador do EA Jon Aritz Bengoetxea, que surgiram acompanhados por outros convocantes, entre os quais se contam membros de vários sindicatos, desportistas, membros de comparsas e pessoas ligadas ao movimento de bairro e associativo.
A manifestação, convocada «no segundo aniversário da imposição da bandeira espanhola na Câmara», enquadra-se nos actos do Aberri Eguna.

Em Laudio (Araba) foi aprovada uma moção da esquerda abertzale para que não se ligasse à imposição da bandeira espanhola, mas o autarca do PNV anunciou que será obrigatório içá-la.
Fonte: Gara

Asian Dub Foundation - «Fortress Europe»



Os britânicos Asian Dub Foundation são uma das bandas que vão estar presentes no festival organizado pela plataforma de jovens independentistas gaztEHerria, dia 2 de Abril, em Durango (Bizkaia). Independentziaren alde! Zatoz!

terça-feira, 23 de março de 2010

Examinar e domar


Não pensem que exagero se disser que o tiroteio de Dammarie-les-Lys e a morte do gendarme Jean-Serge Nérin encheu de satisfação - não dissimulada, por outro lado - uma boa parte da classe política espanhola e os seus terminais em Euskal Herria.

Crêem alguns - muitos - que a acção atribuída à ETA vai provocar o envolvimento louco das forças policiais francesas no combate aos clandestinos da ETA no hexágono. Como se até agora a atitude do Eliseu tivesse sido displicente com os insurrectos bascos do sul. O tempo o dirá.

Mas, muito para lá dos aspectos policiais e operacionais, a satisfação dessa classe política fundamenta-se na possibilidade que lhes é oferecida para examinar a esquerda independentista e tratar de a domar. Falam sem pudor da prova do algodão, do grau de exigência na condenação, no repúdio ou na reprovação. Como o professor de ginástica, elevam a cada passo a fasquia a superar para marcar um «aprovado».

Não vale a análise política, a reflexão ética ou a memória histórica. Tudo se reduz a um simples tópico: condenamos a ETA. Como se a resolução de um conflito político que tem raízes fundas na História se resolvesse com uma palavra, assim como a história do centurião no Evangelho Cristão (Mateus 8, 5-8): «Dizei uma palavra e serei salvo».

Não sei o que farão os franceses ou quais serão os frutos das ameaças do presidente Sarkozy, mas há algo que não me escapa: nem o conflito basco se resolverá com pronunciamentos mais ou menos farisaicos nem é esse, sequer, o objectivo que persegue o unionismo espanhol.

Não procuram o repúdio nem a condenação. Não é isso. Porque sabem que o seu problema não é a ETA. O seu problema é o pecado original do regime espanhol, imposto à força aos bascos, desenhado nas suas linhas mestras por Franco e seus acólitos. E o seu drama é que um sector importante da sociedade basca não está disposto a acreditar em histórias do arco-da-velha. Por isso, quando exigem a condenação da ETA, o que na realidade querem é a renúncia ao objectivo da independência basca. Por isso se enganam outra vez. O ministro Alfredo Pérez Rubalcaba percorre exactamente o mesmo caminho que os seus predecessores.

Martin GARITANO
jornalista
Fonte: Gara

Não têm o mesmo valor

Nem todas as vidas valem o mesmo. É a triste lei do mercado. Após a morte a tiro do chefe de brigada francês Jean-Serge Nérin a sul de Paris, Nicolás Sarkozy, inquieto pelos maus resultados eleitorais, quis agitar os braços para se fazer ver:

«Trabalharemos para que uma pena de 30 anos de prisão seja sistematicamente aplicada aos que atentam contra a vida de um agente da autoridade pública». Agora os cidadãos da República já sabem que a vida de um polícia vale mais que a de qualquer outro contribuinte. Muito mais, por exemplo, que a daqueles que morreram às mãos de agentes da autoridade enquanto se encontravam detidos na esquadra, aqueles que a Amnesty International inclui no seu relatório de 2009 «Polícias acima da Lei». Em 1993, Pascal Taïs, de origem magrebina, era encontrado cadáver - «um mistério», disse-se - no chão de um calabouço de Arcachon, coberto de sangue e excrementos. Nenhum polícia foi condenado; a investigação foi encerrada. A sua morte também não mereceu uma única, miserável palavra do recém-estreado porta-voz do Governo, Nicolás Sarkozy. Nem então, nem em Junho de 2006, quando, como ministro do Interior, ouviu o Tribunal de Estrasburgo condenar o Estado a indemnizar a família do defunto por «ausência de investigação».

Nem todas as vidas valem o mesmo. É lógico, por isso, que a República empenhe todos os meios para dar com aqueles que a tiraram ao chefe de brigada. Como é lógico que esses meios não tenham sido empregues na devida altura para encontrar Jon Anza, encontrado agora cadáver, o que, segundo um periódico gaulês, constitui todo «um mistério». Nem todas as mortes valem o mesmo.

Iñaki LEKUONA
jornalista
Fonte: Gara

Nota: no dia 16/03 associámos ao artigo «A autópsia», de Iñaki Lekuona, uma foto de Iñaki Altuna. Pelo facto, pedimos desculpa a ambos os Iñakis e aos leitores.

Comentário político na Infozazpi Irratia



Iñaki Altuna na Info7

Iñaki Altuna analisa as reacções perante o último comunicado da ETA.

Presos políticos bascos: solidariedade e ameaças

Em Errotxapea, manifestação põe fim a jejum a favor dos direitos dos presos
O colectivo de presos e presas políticas bascas iniciou em 2010 uma dinâmica de luta com carácter permanente, para exigir que se ponha fim à constante violação dos seus direitos.
As manifestações de solidariedade nas ruas não param, e em Errotxapea (Iruñea) habitantes deste bairro, do bairro da Txantrea e das localidades de Burlata e Atarrabia (arredores de Iruñea) levaram a cabo um jejum entre sexta-feira e domingo. O motivo prende-se com o facto de quatro dos seus conterrâneos presos - Jon Rubenach, Iñaki Iribarren, Ugaitz Astiz e Mikel Almandoz - estarem a fazer uma greve de fome por tempo indefinido nas prisões francesas. «O Estado colocou o colectivo de presos e presas no centro da sua estratégia repressiva, deixando às claras qual é a sua resposta à solução do conflito político que sofremos em Euskal Herria, atacando assim o sector mais vulnerável, as pessoas que se encontram encarceradas e dispersas a centenas de quilómetros das suas casas», denunciam num comunicado os grevistas.

Mais punições aos presos
À estratégia de dispersão que começou há já 20 anos, foram juntando «novas formas de ataque» ao colectivo, procurando assim «debilitar e isolar» os presos e as presas. Entre essas medidas destacam-se a aplicação da Doutrina Parot, «uma verdadeira pena perpétua disfarçada em forma de lei», as constantes transferências de prisão, anos em módulos de isolamento, tareias, constantes limitações às comunicações, mantendo nas prisões presos e presas com doenças graves ou incuráveis, restringido o direito ao estudo, proibindo o acesso a qualquer serviço nas prisões...

«Não contentes com os ataques constantes ao colectivo, agora decidiram arremeter contra os familiares e os amigos dos presos e presas», que agora se vêem sujeitos a inspecções físicas para poderem exercer o direito a visitar os seus seres queridos nos conhecidos encontros. «É uma outra forma de punição para humilhar mais ainda todas essas pessoas que um fim-de-semana após outro percorrem a geografia espanhola para poder levar todo o seu carinho aos presos e às presas. Rubalcaba decide numa secretária o futuro deste povo e dos seus cidadãos/ãs e as Instituciones Penitenciarias acelera essa decisão na forma da violação dos mais elementares direitos», acrescentam.

400 pessoas na manifestação
Por tudo isso, o colectivo de presos e presas políticas bascas decidiu dar uma nova intensidade à luta constante que têm mantido ao longo destes anos. Para exigir os seus direitos, estão a levar a cabo numerosas mobilizações em todas as prisões espanholas e francesas. Começaram em Janeiro com greves de fome semanais e prosseguiram com outras mobilizações no interior das prisões.
O jejum solidário terminou com uma manifestação em que participaram cerca de 400 pessoas e que percorreu os bairros de Errotxapea e da Txantrea.
É de salientar que os grevistas foram acossados pela Polícia Municipal. Quatro patrulhas deste corpo entraram na igreja onde estavam a fazer o jejum. Os polícias procederam à identificação das pessoas que participavam na iniciativa solidária e retiraram dali todas as faixas onde se dava informação sobre a dinâmica de luta que as prisioneiras e os prisioneiros políticos bascos começaram em Janeiro.
Fonte: apurtu.org

Em Zizur, ameaçam um ex-preso uma semana depois de sair da prisão
Apareceram inscrições ameaçadoras contra Eder Ariz, ex-preso de Zizur Nagusia (Nafarroa), num muro da sua casa. Numa lê-se «Eder muerete» e noutra «Puta ETA». O ataque ocorreu uma semana depois de ter saído em liberdade (após o cumprimento de 5 anos de prisão), no dia em que lhe foi prestada uma pequena homenagem e se celebrava o Amnistiaren Aldeko Eguna [Dia pró-Amnistia]. Ariz foi detido em Março de 2005 acusado de ser militante da ETA pela Guarda Civil. Denunciou ter sido torturado, mas, mesmo assim, foi-lhe dada ordem de prisão. Depois, conheceria a realidade da dispersão, até ter sido libertado no dia 13 deste mês, deixando para trás a prisão de Foncalent.
Fonte: apurtu.org

Ipar Euskal Herria: A Batera recolheu a opinião de quase 35 000 eleitores


A participação na consulta promovida pela plataforma Batera nas oito localidades que não o fizeram no domingo passado, em virtude de nessa altura se ter realizado a consulta relacionada com o TGV, foi, globalmente, 10 pontos superior à do dia 14, se bem que a tendência expressa tenha sido semelhante: 77,73% a favor da criação de uma colectividade territorial própria. Juntando os resultados de Ahetze, Arbona, Azkaine, Basusarri, Bidarte, Biriatu, Senpere, Ziburu e Urruña aos anteriores, 34 610 pessoas participaram na consulta da plataforma, o que equivale a 17,89% do censo eleitoral dos 124 municípios em que foi organizada. 27 072 cidadãos mostraram-se de acordo com a criação de uma colectividade para Lapurdi, Nafarroa Beherea e Zuberoa.

MAM, interpelada sobre Jon Anza
No decorrer da jornada eleitoral (segunda volta das regionais francesas), a ministra da Justiça, Michèle Alliot-Marie, foi interpelada ao meio-dia, quando saía do colégio eleitoral do município de Donibane Lohizune (Lapurdi), por cerca de vinte pessoas que levavam uma faixa exigindo a verdade sobre Jon Anza. MAM meteu-se rapidamente no carro, com o autarca Peyuco Duhart, tendo abandonado o local por entre as invectivas dos manifestantes, que foram empurrados pelos guarda-costas. A pergunta que lhe faziam - «Que fizeram ao Jon?» - chegou aos seus ouvidos mas ficou novamente sem resposta.
A.M.
Notícia completa: Gara (aqui, podem ser consultados os dados sobre a segunda volta das regionais no Estado francês, em particular no departamento dos Pirinéus Atlânticos e, naturalmente, em Ipar Euskal Herria)

segunda-feira, 22 de março de 2010

Primavera con una esquina rota / Primavera num espelho partido (*)


Começa a Primavera, «marcada pela fenda do glaciar que une Toulouse a Dammarie-les-Lys» e, segundo Joxean Agirre, a versão oficial do ocorrido em torno da morte de Jon Anza «partir-se-á em mil pedaços graças ao gelo que agora nos aperta às portas de Abril». Todavia, com o degelo a Primavera «fará fluir a corrente imparável de que necessitamos».

Enquadrado pela ditadura que o Uruguai viveu entre 1973 e 1985, Mario Benedetti escreveu há muitos anos Primavera con una esquina rota. Nesse livro contou-nos uma história aberta em várias frentes, na qual nos aproxima da forma como o exílio e a prisão afectam as pessoas, tanto aquelas que passam directamente por isso como as que as rodeiam. É um conjunto de histórias protagonizadas por gente essencialmente normal, sem perfil heróico, que fala de causas e consequências, do que escolhemos e do que vem até nós, de situações imperfeitas e, portanto, comuns às pessoas que não se têm na conta de infalíveis ou invulneráveis. Embora por vezes a memória nos atraiçoe, estou capaz de jurar que foi o primeiro livro que li na prisão.

O acaso quis que este artigo se publicasse no domingo em que oficialmente inauguramos a Primavera, esse compêndio de tópicos sazonais que nos convida a tirar das gavetas outras peças de roupa e a deixar que as botas durmam no fundo do armário. Esta Primavera, como se se tratasse do espelho estilhaçado cuja aresta denuncia a sua imperfeição, começará sem se assinalar a si mesma. Vem gélida, congelada como o olhar azul dos alpinistas sepultados sob o gelo e dos que nenhuma expedição conseguiu resgatar. Marcada pela fenda do glaciar que une Toulouse a Dammarie-les-Lys. Traz consigo o frio da morgue em que, diz a versão oficial, Jon Anza permaneceu durante mais de dez meses. Era óbvio que Jon estava morto; poucas dúvidas - e esperanças - tínhamos a esse respeito. Quem o conheceu, pressentiu-o praticamente desde o início, porque Jon era metódico, não deixava nada ao acaso e foi pontual em todos os encontros que marcou na sua vida.

Sabíamos que o tinham matado ou, o que vai dar ao mesmo, que tinha morrido nas mãos dos que o interceptaram naquela viagem misteriosa, possivelmente o único trajecto em toda a França em que um cidadão pode evaporar-se sem que fique registo numa câmara dos vagões, nas estações, na cidade de partida e destino. Um espaço opaco na controladíssima República. Desde que Rubalcaba se auto-ilibou em público, comecei a explorar nos fundos das hemerotecas para comparar a sua reacção com a dos seus colegas nos tempos do GAL. Jesús Egiguren e Odón Elorza eram, nessa altura, porta-vozes do PSOE guipuscoano, e em algumas das suas intervenções públicas acusavam o Herri Batasuna de «fazer vitimismo» quando denunciava os atentados parapoliciais e apontava o partido de ambos como responsável político desses atentados. Pouco tempo depois, Amedo, Domínguez, Bayo, Dorado e outros mais começaram a dar com a língua nos dentes, e o PSOE de Felipe González e Pepe Barrionuevo deixou de ameaçar com a instauração de processos.

Rubalcaba tem-se movido em secretarias de estado e ministérios desde 1982, de maneira que tem perfeita noção do valor do que é afirmado e, claro, da importância do que se silencia. De forma que agora defende que se deite um manto de cal viva informativa sobre os furos, as revelações, os dados e as contradições que apontam o Reino de Espanha como implicado no desaparecimento de Jon Anza. Os sopros da procuradora Kayanakis, as declarações do comissário François Bodin no sentido de não pôr de lado a hipótese de que um serviço estrangeiro tenha interferido no caso, o aluvião de dados provenientes da imprensa crítica gaulesa, a atitude hermética do Ministério da Justiça, impedindo a participação de médicos designados pela família na autópsia, constituem uma base probatória suficiente na sobrecarregada memória dos habitantes de Euskal Herria. As «acções legais» que o ministro anuncia não vão enterrar a verdade. A água que entra pelas gretas diminutas das rochas da superfície terrestre cria uma imensa pressão quando se solidifica, capaz de partir a pedra mais sólida. Do mesmo modo, a versão inverosímil construída pelas autoridades francesas para encobrir o se passou partir-se-á em mil pedaços graças ao gelo que agora nos aperta às portas de Abril. A seu tempo.

Mas o sobressalto da terça-feira passada numa localidade próxima de Paris também não encaixa na bondade climatérica que associamos à Primavera. À espera do que a organização armada diga, o desenvolvimento e as consequências do que ocorreu afiguram-se como um contratempo inesperado. Também como um desenlace fortuito e indesejado. Em Euskal Herria deram-se muitas situações parecidas, mas na presente conjuntura devemos analisá-las a partir de um prisma estritamente político, não como fruto da fatalidade.
Porque a detenção e o tiroteio de Dammarie-les-Lys foram precedidos pela decisão de levar a cabo uma acção armada de envergadura, fossem os seus fins o abastecimento ou qualquer outro, e esse factor é substancialmente político em toda essa cadeia de incidentes. Como em tantas outras ocasiões ao longo dos seus mais de cinquenta anos de existência, a sociedade e os agentes políticos e sociais aguardam com expectativa a tradução prática que a ETA faz da «leitura política» que o conjunto da esquerda abertzale e outros sectores efectuaram. Existe um mandato manifesto a cumprir que, além de resultar de um vasto processo de reflexão interna, a própria organização armada assumiu como próprio e vinculativo.

Sobre essa base indiscutível, o novo ciclo político, o processo democrático em marcha não é compatível com os apetrechos e usos de fases anteriores. A mim, também não me escapam as dificuldades que custa enfrentar «a nu» os desafios que nos propomos, mas das duas uma: ou assumimos, com todas as consequências, que o caminho a percorrer exige que o façamos com outros instrumentos de luta ou, posta de lado a viabilidade de acumular forças e activar a sociedade de forma eficaz, nos lançamos sozinhos por outra via. Esta segunda opção, tão legítima quanto conhecida, não tem outro sustento que não seja o voluntarismo que nos mantém vivos, o nervo da resistência e da fidelidade a um esquema de intervenção determinado. Há muito que conta com guionistas e apoio popular, mas carece de alcance e de possibilidades de avanço. Não se trata de pôr ninguém entre a espada e a parede; menos ainda de condicionar as decisões que cada qual há-de tomar. Ao fim e ao cabo, ninguém é dono, em exclusivo, do património representativo do último meio século de luta em Euskal Herria. Mas penso que a maior demonstração de força que convém fazer neste momento passa por transmitir a todos os âmbitos de acção a linha traçada em «Zutik Euskal Herria». Dizê-lo em voz alta, reclamá-lo, é sublinhar que a única coisa de que somos devedores é da determinação de vencer. E é o que há a fazer agora.

Que não nos aconteça aquilo que, como conta Benedetti em Primavera con una esquina rota, aconteceu aos passageiros de um comboio que viajavam sentados, frente a frente, cada um na sua janela, e falavam sem se aperceberem de que, ao referirem-se à paisagem que observavam, o comentário do que olhava para a frente nunca era exactamente o mesmo do que olhava para trás. De forma diferente do que se passa com a verdade sobre quem matou Jon Anza, nesta viagem o frio não nos ajuda. Com o degelo, a Primavera fará fluir a corrente imparável de que necessitamos.

Joxean AGIRRE AGIRRE
membro da esquerda abertzale
Fonte: Gara

(*) Primavera num espelho partido: título da edição brasileira (Alfaguara, 2009) da obra de Mario Benedetti Primavera con una esquina rota.

A ETA mostra total disposição para dar passos necessários que favoreçam mudança política


O comunicado que a ETA enviou ao Gara dirige-se aos cidadãos bascos e nele, para além de fazer uma análise da situação política que Euskal Herria tem vivido nos últimos tempos, inclui-se uma «declaração» de sete pontos em que, entre outras questões, a organização armada mostra a sua disposição para dar «os passos que forem necessários» para favorecer a mudança política.

A «Declaração da ETA» começa por expressar o seu respeito pelos agentes que, nos últimos meses, têm tentando pôr em marcha uma nova dinâmica a favor de Euskal Herria, num contexto marcado «pela dura situação repressiva» e «pela pressão político-mediática». Também mostra disponibilidade para colaborar com todos os agentes que assumam que, para «construir um cenário democrático que garanta o futuro de Euskal Herria», é necessário dar «passos seguros» e assumir «compromissos firmes».

Por isso, a ETA faz um apelo a todas as mulheres e todos os homens bascos para que, cada qual dentro das suas possibilidades, «lutem a favor de Euskal Herria», já que considera que «a activação social» é «a principal garantia» para avançar nesse sentido.

«A ETA, por seu lado, manifesta que está disposta a dar os passos necessários no caminho da mudança política, no espaço que lhe corresponde», prossegue no quarto ponto.

Em seguida, reitera a sua «vontade para resolver o conflito» e acrescenta que o seu desejo e a sua tarefa consistem em alcançar «uma formulação acordada» para que os cidadãos bascos decidam o seu futuro «sem qualquer tipo de limites ou ingerências» e «construir sobre bases sólidas o processo democrático» que contenha «as garantias» para que esse exercício de decisão se possa levar a cabo.

Também reitera a sua atitude de «falar ao povo com transparência e honestidade», algo que contrapõe à «intoxicação informativa» que, em seu entender, «o Governo espanhol transformou num importante instrumento político».

Por último, a ETA reitera «o compromisso com Euskal Herria» que assumiu há 50 anos, para garantir que continuará «a lutar firmemente por Euskal Herria». «Não cessaremos até alcançar a liberdade», conclui.

Factor psicológico
Na primeira parte do texto, a ETA centra-se na análise das formas e das consequências do que vem a denominar «ataque generalizado e intenso» que, segundo afirma no segundo parágrafo, o Governo espanhol desencadeou contra Euskal Herria desde que conduziu o último processo ao fracasso.

Responsabiliza o Executivo espanhol por ter «fechado a porta à oportunidade para uma solução democrática» e por «ter decidido alargar a todos os âmbitos a negação e desenvolver uma ofensiva repressiva sem limites».

A organização armada entende que a esquerda abertzale é o alvo dessa ofensiva porque «há trinta anos conseguiu que a assimilação de Euskal Herria em França e Espanha fosse impossível», e porque «conseguiu manter aberta de par em par a porta da independência e da liberdade».

Neste contexto, recorda que «foi imposto o estado de excepção em Euskal Herria», foram ilegalizadas organizações políticas, foram detidos militantes, «são constantes as limitações de direitos civis e políticos», «aumentam a crueldade para com os presos políticos» e abundam os «sequestros de cidadãos» e os «interrogatórios clandestinos».

Uma estratégia com que, na opinião da ETA, não só se pretende condicionar a actividade política da esquerda abertzale, mas também «influir no factor psicológico».

A organização armada comenta que, pela enésima vez, o Estado espanhol «pretende vender a fantasia da saída policial», apesar de «o ministro do Interior, Pérez Rubalcaba, saber muito bem que hoje, como ontem, a única via que garante o final da resistência basca é o reconhecimento dos direitos de Euskal Herria».

Também acusa o ministro do Interior espanhol de estar «habituado às mentiras e à propaganda de guerra», de tentar desfigurar a realidade atrás de frases pomposas e de pretender desviar o debate. Mas não só o acusa, também lhe responde. «'Votos ou bombas' é a sua última patranha», sublinha a ETA no comunicado enviado a este diário. «E a esquerda abertzale responde-lhe em alto e bom som: 'Votos', como método democrático para que os cidadãos bascos, sem limites e sem ingerências, e sendo materializáveis todos os projectos, decidamos o nosso futuro. Dar a palavra ao povo».
Em seguida, afirma que essa é precisamente a opção que o Governo espanhol recusa a Euskal Herria, que é o que, segundo recorda a organização armada, está na base do conflito. «Esse é o limite - conclui a ETA neste ponto - que a luta dos cidadãos deve contribuir para superar».
Fonte: Gara

Desafiam a juventude independentista a aparecer em força em Durango, no dia 2 de Abril

Dentro de duas semanas Durango será, por um dia, o ponto de encontro dos jovens que defendem a independência como única opção para a sobrevivência de Euskal Herria enquanto povo. Haverá debates, workshops, um almoço popular, kalejiras [marchas, desfiles de rua], um acto e concertos de música com grupos tão conhecidos como Asian Dub Foundation, Gose, Soziedad Alkoholika e Ojos de Brujo, entre outros. Anunciam ainda mais uma «surpresa».
Ver: Gara e gaztEHerria