quinta-feira, 4 de setembro de 2008

Censo das vítimas do franquismo: Ahaztuak considera que a iniciativa de Baltasar deixa em evidência “o modelo espanhol de impunidade”


O facto de esta iniciativa ter lugar em 2008 põe em evidência o vazio existente no Estado espanhol no que diz respeito à Verdade, Justiça e Reparação para as vítimas do franquismo.

Ante a iniciativa do juiz Baltasar, da Audiência Nacional espanhola, para alcançar informação do Governo espanhol, da Conferência Episcopal e de vários municípios com o fim de elaborar um censo de fuzilados, desaparecidos e enterrados em valas comuns a partir de 17 de Julho de 1936, a AHAZTUAK 1936-1977 [Esquecidos 1936-1977] realiza a seguinte apreciação:

Em primeiro lugar, queremos situar na sua verdadeira dimensão o significado desta petição judicial para conhecer o nome das pessoas enterradas em valas comuns como consequência da repressão franquista, as circunstâncias e as datas em que se deram esses enterros e se aparecem em algum registo. O simples facto de que esta iniciativa tenha lugar em 2008 põe em evidência o vazio existente no Estado espanhol no que diz respeito a procedimentos e medidas reais para a consecução da Verdade, da Justiça e da Reparação para as vítimas do franquismo.
É tão esclarecedor quanto intrigante o facto de que, mais de 70 anos depois do golpe fascista de 18 de Julho de 1936 e mais de trinta anos depois da morte do ditador Franco e do início do actual regime democrático, ainda não exista um censo oficial dos perseguidos, assassinados e desaparecidos pelo franquismo.
Não sabemos onde irá dar uma investigação destas características, se avançará para a busca dos desaparecidos ou se chegará a investigar os crimes de lesa-humanidade cometidos no Estado. Tudo isto mostra que o modelo espanhol de impunidade em que se cimentou o final da ditadura não é sustentável. Ficou em evidência que o trabalho que deveria ter desenvolvido a Justiça ou uma Comissão da Verdade foi levado a cabo durante décadas por iniciativas populares, associações de familiares e colectivos de recuperação da memória histórica.

Para a Ahaztuak esta nova situação é positiva porque implica um novo impulso para esclarecer os factos e poder avançar no sentido de medidas reais de Justiça, mas sem esquecer que a elaboração de um censo completo é uma reivindicação antiga de todos os que têm trabalhado neste âmbito, e querem saber e que se saibam “Todos os Nomes”, para que todos tenhamos consciência da magnitude dos crimes cometidos pelos franquistas. Por isso, é necessário o envolvimento de todas as instituições, não com um único objectivo, historicista ou documental, mas como uma ferramenta útil para a difundir, a consciencializar e, sobretudo, fazer chegar a Justiça a todos esses milhares de vítimas: anulando as suas sentenças, limpando os seus nomes e esclarecendo as responsabilidades dos culpados.
Desde a Ahaztuak, consideramos que o compromisso de tantas pessoas está a dar os seus frutos – que não só se conseguiu manter vivo o debate sobre a denúncia política do franquismo e das suas consequências na actualidade, mas que é cada vez mais evidente a necessidade de continuar a reivindicar a memória de todos os perseguidos pelo franquismo como uma ferramenta democrática de presente e futuro.

Fonte: kaosenlared
Ver também: ahaztuak1936-1977