«Identidade Navarra», entrevista ao historiador Mikel Sorauren.
Fonte: Nabarralde
Domingo, 18 de Maio de 2008
Noticiário de Nafarroa – III: uma questão de identidade
Noticiário de Nafarroa – II: a resistência tenaz dos ‘euskaldunak’
José Ramón Aranguren tem 69 anos e expressa-se em castelhano. A sua neta, Amets, tem 9 e respondeu-lhe em euskara, aquando da celebração da edição de 2007 do Nafarroaren Eguna [Dia de Navarra], junto ao Monumento aos Foros de Iruñea [Pamplona], e promovida pela Fundação Orreaga. O avô pôde assim ver como rejuvenesce a Nafarroa euskaldun [de língua basca], que anseia por liberdade e resiste a cinco séculos de conquista.
«Gu gaurko euskaldunok» [Nós, os Bascos de hoje]. Dos que inscreveram este lema no Monumento aos Foros há 100 anos aos que se reuniram nesse lugar para celebrar o Nafarroaren Eguna. Dos que combateram em Orreaga (1) aos que integram a fundação com o mesmo nome e que promovem este encontro anual. Do tetravô de José Ramón Aranguren – euskaldun de Elo (Monreal) – à sua neta – também euskaldun, de Iruñea. São elos de uma cadeia que nunca se interrompeu, apesar de todos os pesares, desde a invasão castelhana de 1512 ao decreto do euskara ou à Lei de Símbolos (2), dos primeiros anos do século XXI.
A cadeia dos navarros euskaldunes e livres resistiu aos embates da história, muito duros durante o século passado e também nos alvores deste. Aranguren é um bom exemplo. Nasceu erdaldun [aquele que não fala basco], ao contrário do seu tetravô e da sua neta. E, aos 69 anos, estava a ser julgado na Audiência Nacional por ter dado força a um projecto jornalístico também euskaldun e livre (3). Mas no Nafarroaren Eguna quis passar uma mensagem de optimismo, sustentada no diálogo entre o avô, de fala castelhana, e a neta, euskaldun. Tanto ele como ela desejaram que as últimas décadas “não tenham sido mais do que um pesadelo: três gerações a perder a nossa fala e outras três a recuperá-la”. E, antes de receber o galardão de Orreaga, o veterano militante abertzale deixou outra mensagem de grande alcance: “Só podemos dar algo ao mundo se continuarmos a ser Navarros, quer dizer, Bascos livres. Caso contrário, não existiremos”.
O euskara e a história
Este rejuvenescimento assenta em duas bases: o euskara e a história. Aquando da última celebração do Nafarroaren Eguna, a 3 de Dezembro de 2007, ouviu-se a lingua navarrorum com bastante intensidade, na Zona Antiga e sobretudo no Sarasate Pasealekua. Logo desde o palco, o bertsolari Iñigo Ibarra deixou as coisas bem claras: “Hizkuntzatik etorriko da Nafarroaren garaipena” [É a partir da fala que surgirá a vitória de Navarra]. A outra pedra angular é a história, e, neste aspecto, a Fundação Orreaga tem muito a dizer. Na sua década de existência, também contribuiu com a sua parte para dar a conhecer factos como os de 1512 (4). Hoje em dia, nem sequer o Governo de Miguel Sanz (5) nega a evidência da invasão, ainda que tente adocicar a realidade. Num folheto de propaganda com o título «Milénios de convivência», utiliza-se esse termo e também o de conquista. A UPN evidencia aquilo que já não se pode ocultar. Prevê, inclusive, a realização de actos de lembrança dos 500 anos da perda da independência.
(1) Batalha de Orreaga, mais conhecida na história e nas lendas como Roncesvalles, na qual as tribos bascas destruíram a retaguarda do exército de Carlos Magno, em 778. Aqui perderia a vida Roldão, paladino que estaria no centro da célebre canção de gesta La Chanson de Roland, do séc. XII.
(2) Que instituiu a proibição do uso da ikurriña em edifícios institucionais navarros e a aplicação de coimas aos municípios que o permitissem. Sem sucesso, em tantos e tantos casos, diga-se.
(3) Era um dos muitos acusados no Processo 18/98, no seu caso por ter sido vice-presidente da Orain, editora do diário Egin. Foi afastado do Processo por motivos de saúde, para ser julgado à parte.
(4) Basicamente, os relacionados com a invasão e o início da ocupação de Navarra por Castela e Aragão.
(5) O da Comunidade Foral de Navarra.
Fonte: Nabarralde
Noticiário de Nafarroa – I: a política do ‘hello’ em detrimento da do ‘kaixo’
A plataforma Haur Eskolak Euskaraz, criada em Fevereiro de 2007, apresentou um relatório sobre a situação das escolas infantis em Iruñea [Pamplona], no qual se conclui que no ciclo dos 0 aos 3 anos continua a existir uma situação que não satisfaz a procura em geral. Mas aquilo que mais chama a atenção é a “grave discriminação” a que são sujeitos os pais e as mães que optam pelo euskara. Os dados são claros: dos 15 centros existentes, as 12 escolas infantis em castelhano têm capacidade para acolher 977 crianças (65% do total); os dois únicos centros em euskara oferecem 172 vagas (11%); e os três em regime de castelhano-inglês podem receber 358 (24%). Por outras palavras, por cada lugar em euskara, o Município dirigido por Yolanda Barcina (UPN) oferece dois em inglês.
O cenário é este porque a situação se arrasta, e nem sequer é possível conhecer a demanda real porque muitos pais partidários da língua basca desistem de solicitar uma vaga quase inalcançável. A aproximação mais fiável consiste em analisar as pré-matrículas para o ciclo seguinte, ou seja, dos 3 aos 6 anos. Neste caso, o modelo D, em euskara, é opção para 1268 crianças; em castelhano, para 1288; e em inglês, para 437. Partindo destes dados, pode-se fazer uma extrapolação para o ciclo anterior, o dos 0 aos 3 anos, verificando-se que só se dá resposta a 7% da procura de euskara, enquanto a percentagem de castelhano é de 22,80% e em inglês sobe até aos 69,50%.
E a discriminação linguística ganha força com o tempo. Nos últimos quatro anos começaram a funcionar três novas escolas infantis. Todas em castelhano-inglês. No ano lectivo de 2004-05, a Câmara Municipal tinha previsto abrir um novo centro em Errotxapea e, perante essa perspectiva, formou-se uma plataforma para exigir que se atendesse à demanda de euskara. Numa sondagem realizada, 63% das famílias mostraram-se a favor desta língua. Contudo, a Câmara optou pelo centro «Hello Rochapea», em vez do «Kaixo Errotxapea», proposto pela plataforma. No ano de 2007-08 passou-se o mesmo com o «Hello Azpilagaña», com a agravante do estabelecimento directo da gestão privada do centro.
Outros dos grandes problemas relacionados com a educação infantil em Iruñea tem origem na distribuição geográfica. Como existem poucos centros, estes deveriam encontrar-se distribuídos da maneira mais equilibrada possível, para atenderem a todas as zonas da cidade. Neste aspecto, a educação em castelhano é a mais bem preparada, uma vez que, como foi afirmado, dispõe de 12 dos 15 centros existentes, seguida pela de castelhano-inglês, com três centros também bem distribuídos. Ao invés, os dois únicos centros em euskara estão num mesmo bairro: Txantrea. A plataforma Haur Eskolak Euskaraz, na sequência de numerosas mobilizações, propôs, como medida a curto prazo, a redistribuição dos modelos nos centros disponíveis, tendo em atenção a procura existente.
Em Donibane: pouca atenção à procura da língua basca, mas em inglês sobram vagas
O último centro habilitado para as idades entre 0 e 3 anos foi o Colégio de Ensino Infantil e Primário José María Huarte, no bairro de Donibane. Em Novembro de 2007, abriu-se a pré-matrícula com uma oferta de 112 vagas para inglês. Só receberam 15 respostas, pelo que decidiram ampliar o prazo de inscrição. Contudo, no final, não houve mais de 30 inscritos, tendo sobrado 82 vagas. Isto, num bairro onde não há sequer oferta de euskara para as crianças entre os 3 e os 6 anos, o que obriga os moradores txikis [pequenitos] a deslocarem-se até a Sanduzelai ou Iturrama, e os mais pequenos ainda, dos 0 aos 3, até Txantrea (do mesmo modo que o resto das famílias de Iruñea). As famílias, os moradores em geral e outros grupos de Donibane mobilizaram-se, criando uma plataforma que exige a possibilidade de estudar em euskara no seu bairro. Como sublinham a partir do movimento, “pagamos com os nossos impostos a construção de novas escolas de Educação Infantil, sem que possamos aceder aos serviços que prestam”. Jasone MITXELTORENA
Fonte: Gara
Sábado, 17 de Maio de 2008
Milhares de pessoas denunciam repressão e apoiam movimento pró-amnistia
Foto: EFEUm deles, Julen Larrinaga, destacou no início da mobilização que o julgamento que está a decorrer em Madrid é “um ataque global contra todos os presos e refugiados políticos” e denunciou que, como “o Estado não consegue negar e esconder a nossa existência, criminaliza-nos, reprime-nos e prende-nos”. Larrinaga sublinhou que o movimento pró-amnistia é “a consequência de 30 anos de violência e repressão em Euskal Herria” e assegurou que, mesmo “havendo julgamento e sentenças decididas de antemão, continuaremos firmes no nosso propósito de dar a conhecer todos os pontos negros existentes neste suposto Estado de Direito que vigora em Euskal Herria”.
A manifestação terminou por volta das 19h na Câmara Municipal, onde teve lugar um comício em que interveio Juan Mari Olano.
No coração de todos
Olano dirigiu as primeiras palavras a todos os presos e refugiados políticos: “viemos prestar-lhes uma homenagem e dizer-lhes que gostamos deles, que os temos no coração, porque [os outros] nos querem criminalizar pelo que somos e por quem somos. Porque somos a voz transparente deste povo, verdadeiros abertzales, e porque sabem que lutaremos até ao fim na defesa dos direitos dos cidadãos bascos e de Euskal Herria”. Nesse sentido, assegurou que continuarão a trabalhar para dar amparo aos torturados, aos presos e aos seus familiares, e aos que se viram obrigados a abandonar o seu país. Olano disse ainda que, “se não levantarmos um muro firme perante a repressão, não chegaremos a lado nenhum”, e por isso destacou que fazer frente à repressão “é estratégico e tem um valor político enorme”. Deste modo, fez um apelo ao reforço do movimento pró-amnistia.
Olano também insistiu na ideia de que, apesar dos julgamentos e encarceramentos, “a determinação deste povo em conseguir um marco democrático que leve à independência é insubornável – e estamos dispostos a sofrer”. “Não vamos abandonar à sua sorte milhares de homens e mulheres que deram tudo por este povo”, sublinhou, para afirmar de seguida que o Estado espanhol “tentou tudo contra este povo”, e que este “continua de pé”, apesar de “nos quererem fazer crer que não existe a possibilidade de um marco democrático para lograr a independência”. “Já percebemos qual é a vossa aposta, mas o caminho é longo. A aposta em fazer desaparecer a esquerda abertzale do cenário político fracassará”, afirmou.
Sexta-feira, 16 de Maio de 2008
Martin Scheinin, relator especial da ONU, apela ao fim do regime de incomunicação
No final de uma visita de uma semana ao Estado espanhol, o relator especial da ONU sobre a Promoção e Protecção dos Direitos Humanos e as Liberdades Fundamentais na Luta contra o Terrorismo, Martin Scheinin, reflectiu sobre a definição que a legislação espanhola apresenta dos delitos de “terrorismo”, tendo sublinhado que estes devem incluir um “elemento fundamental de violência física mortal ou grave contra a população em geral ou seus segmentos”, e alertado contra “definições vagas e amplas que acabam por minar a firme mensagem moral inerente às definições estritas baseadas no carácter indesculpável de cada acto de terrorismo individual”.
“Rolar pela encosta abaixo”
A este respeito, Scheinin qualificou de “sensata” a definição que se faz dos delitos de terrorismo no artigo 157 do Código Penal espanhol, mas realçou que outras disposições relativas a esta questão, como “a referência a ‘qualquer outro delito’, no artigo 154, a noção de ‘colaboração’, no artigo 576, e a disposição emendada no artigo 577 sobre a violência de rua, acarretam o risco de uma ‘gradual deterioração’” da definição de terrorismo. Isto implica o risco, acrescentou, de “se ir alargando, pouco a pouco, a noção de terrorismo a acções que não constituem e não têm relação suficiente com actos de violência grave contra a população em geral”. E afirmou ainda que, “quando se começa a rolar por essa encosta, se corre o risco de violar muitos direitos”.
No parecer deste relator finlandês da ONU, o facto de se estar a aplicar “a detenção em regime de incomunicação” relaciona-se com a deterioração referida. Por isso, pediu ao Governo espanhol que inicie um processo de exames periciais independentes sobre o carácter apropriado das actuais definições e o risco de deterioração gradual. Mais do que isso. Scheinin apelou ao fim do regime de incomunicação. Pensa que isto daria credibilidade às medidas “antiterroristas” e contribuiria para eliminar a “zona cinzenta” em que o detido está sozinho.
No que diz respeito às denúncias de torturas e maus tratos sobre detidos, Scheinin pediu ao Governo “maior vigilância no seu compromisso para erradicar a tortura” e disse estar consciente do “uso generalizado da tortura” durante o regime franquista. Apesar de esclarecer que não considera que tenha havido “uma continuação” desta prática, mostrou-se preocupado com o facto de “continuarem a existir alegações de tortura e maus tratos sobre suspeitos de delitos de terrorismo, e de, a partir daí, não surgirem investigações rápidas e independentes”. “Estou convencido de que a existência dessas alegações e a sistemática falta de investigação independente minam a luta antiterrorista de Espanha”, asseverou.
Não só jurisdição da AN
O relator fez outro pedido ao Executivo espanhol: que estude a possibilidade de os “delitos de terrorismo” não serem unicamente da jurisdição da Audiência Nacional, e que possam ser julgados por tribunais ordinários. Explicou que, devido ao facto de no Estado espanhol só a Audiência Nacional se encarregar dos casos de “terrorismo”, e uma vez que a função do Supremo Tribunal se limita tradicionalmente a questões de direito, os mecanismos existentes de revisão por um tribunal superior, aos quais tem direito toda a pessoa condenada por um delito, padecem de uma deficiência estrutural. E constatou que, apesar das medidas adoptadas para abordar esta questão, o problema continua vigente.
Durante a visita, Scheinin reuniu-se com vários representantes políticos espanhóis. Há quatro anos, um outro relator especial da ONU, Theo Van Boven, tinha apresentado um relatório bastante crítico relativamente à prática da tortura no Estado espanhol, no qual também censurava o regime de incomunicação. As autoridades espanholas fizeram caso omisso das suas recomendações e trataram de o desacreditar.
Fonte: Gara
Quinta-feira, 15 de Maio de 2008
À Meritíssima, Angela Murillo
Luis Beroiz, Pai de um torturado condenado

Já tínhamos ouvido falar muito de ti, sobretudo desde que presidiste ao julgamento mais leviano que se realizou desde o processo de Burgos[1]. As coisas que se disseram de ti não as vou reproduzir agora, nem me vou apoiar na reacção contra ti de centenas de juristas de aqui e de ali, nem me vou deter na iniciativa de um tripartido[2] que te denunciou por violação de direitos e liberdades elementares ao mesmo tempo que, paradigma do sarcasmo eleitoral, depositava os nossos filhos no teu colo. Não, meritíssima. E não o farei porque o gozo íntimo que experimentais perante estas contundentes respostas só é equiparável à dor que os vossos veredictos disseminam.
Não sou ninguém, pois, para falar do mega-processo 18/98[3], mas sim para fazê-lo sobre o processo 36/2004, em que ambos fomos protagonistas: tu presidindo ao julgamento e eu contemplando como o fazias. A primeira surpresa surgiu quando, ali mesmo, nos apercebemos da troca do tribunal, pois vocês não eram os inicialmente designados. A segunda quando, ao iniciar-se a sessão, enojada, ameaçaste expulsar-nos da sala se continuássemos a dar mostras de carinho – que dada a tua advertência, foram furtivas – aos nossos filhos, irmãos e amigos ali enjaulados.
Em frente tinhas os acusados, em grande número, de cara descoberta, sorridentes e tranquilos. À tua direita, escondidas atrás de um biombo, desfilaram as testemunhas que o tripartido enviou, entre os quais, de forma suspeita, desta vez não estavam os que os interrogaram, os seus torturadores. O teu trabalho era simples: acreditavas nuns ou acreditavas noutros. Os rapazes limitaram-se a manifestar a sua inocência, apresentaram testemunhas fiáveis e narraram-te com detalhe o terrível trato a que foram submetidos. Os agentes, à frente, fizeram sentar no banco um rapaz, Kepa Saratxaga, que no dia apontado nos autos não podia ter estado onde diziam, porque se encontrava injustamente na prisão e tu, ciente de que os que o referiram, vários, isoladamente e um sem o conhecer, o fizeram sob tortura, não te alteraste e continuaste com a farsa; estes mesmos credíveis agentes fabricaram-te com pontas de cigarro e sacos de plástico duas toscas provas, indemonstráveis e construídas grosseiramente a posteriori. Tinhas, pois, em frente a polícia com mais inocentes falsamente incriminados por metro quadrado, como tinhas obrigação de ter comprovado recorrendo às sentenças de processos anteriores. Posto isto, abandonámos a Audiência esperançados, apesar do período eleitoral e da orgia de câmaras presentes no acontecimento.
Já em casa, há poucos dias, umas chamadas anónimas, feitas a partir de um número desconhecido à meia-noite, e, principalmente, a perseguição de que os rapazes foram alvo (novamente!), inclusive até à porta de casa, alarmam-nos, anunciando o pior. E o pior teve lugar. Acabámos de tomar conhecimento, através da imprensa (!), da tua condenação. Cinco anos como podiam ter sido cinquenta. Como prémio concederam-te a Presidência da Quarta Secção do Tribunal Penal da Audiência Nacional. Em boa hora, Meritíssima. Voltarei a escrever-te quando ler a tua impúdica sentença.
Entre os teus condenados, e ainda que a reflexão que vou apresentar seja aplicável a qualquer um deles, há um que conheço melhor e de quem sei mais coisas. Como os outros, foi torturado, injustamente encarcerado, isolado dois anos e meio, e finalmente liberto porque, entre outras pérolas, também disseram que ele tinha estado em dois sítios ao mesmo tempo e que recém-operado, tinha corrido com muletas. Podia contar-te o seu quase mortal acidente, o seu simulacro de linchamento quando uma besta nos cilindrou, da sua pneumonia, da sua necessidade de acompanhamento psicológico. É um rapaz que, por tê-lo desmascarado, o nosso conselheiro do Interior necessita dele preso. Para o conseguir, ele, que mentiu uma, cinco, dez vezes, voltou agora a fazê-lo. Num outro dia, Meritíssima, contar-te-ei o que a ameaça de três doenças, daquelas que mais matam, fez às nossas vidas desde que esse inominável nos acossa. Como podes comprovar, Angela, as vossas sentenças acarretam uma condenação muito mais cruel que os dígitos que delimitam os anos de prisão.
O conselheiro, depois de sucessivos fracassos, encontrou, finalmente, uma juíza à sua medida. Juntou-se a fome com a vontade de comer. O que não conseguiu com outros conseguiu contigo. Porque tu também foste levada pelas bilocações. Tu também localizaste um condenado aonde ele não podia estar pois nós, os seus pais e várias testemunhas, estávamos com ele, na noite dos autos, no estabelecimento onde servia. Tu saberás por que o fizeste. Tu saberás por que reinventaste o princípio “na dúvida a favor do trapaceiro”. Estudar leis para violar direitos é o mesmo que estudar pediatria para agredir crianças.
Estamos fartos. Três vezes detido, três vezes interrompidos os estudos, pela terceira vez o isolamento cruel, e pela terceira vez a viajar para muito longe aos fins-de-semana. Decidiste o nosso modus vivendi para os próximos cinco anos. E agora o quê? Aprendi de pequeno que justiça era dar o seu a cada um, por mais que aqui [a chapada] vá sempre parar à mesma bochecha, a nossa. Não nos resta, então, outro modo de equilibrar a balança que procurar alcançar, por nossa conta, essa justiça que nos estás a negar. Exigem-nos a dignidade e as vísceras, ainda que de momento só façamos caso da primeira. Diz-me que farias tu se tivessem feito o mesmo ao teu filho. Não estou disposto a esperar por outra lei da memória que nos ressarça da perversidade dos vossos veredictos.
Porque vocês não julgaram o incêndio de um par de caixas automáticas, cuja autoria, sem desresponsabilizar a polícia autonómica, deves tu conhecer. Não. Isso não importa nada. Vocês precisam dos julgamentos políticos e utilizam-nos para exercitar o ódio a tudo o que representamos, para saciar a vossa sede de vingança. Claramente. É, pois, o momento de pôr os pontos nos is. És capaz de imaginar do que podem ser capazes os pais que sabem da inocência e da tortura dos seus filhos? Não vais tardar a sabê-lo. O contrário seria renegar a nossa condição de progenitores. Meritíssima. Pelo nosso povo, não te digo que não, poderíamos assumir esta imensa dor, mas jamais para satisfazer os vossos baixos instintos. Nem tu nem o conselheiro cipayo[4] vão continuar por mais tempo a amargar-nos a existência. Porque, a menos que o Supremo cobice menos histeria e mais coerência, se não pudermos partilhar o lar com o nosso filho livre, partilharemos a prisão com o nosso filho preso.
[1] Julgamento sumário de 16 pessoas, que decorreu a em 3 de Dezembro de 1970, durante o regime franquista, acusadas de matar 3 pessoas e de pertença à ETA, e condenadas à morte. Ler
[2] O actual governo autónomo de Euskadi é formado por 3 partidos: PNV (Partido Nacionalista Vasco) em maioria, EA (Eusko Alkartasuna) e EB (Ezker Batua).
[3] Conjunto agregado de processos judiciais movidos pelo Estado espanhol contra cidadãos bascos ligados a jornais, associações juvenis, ambientalistas, culturais, sociais, de promoção da desobediência civil e de defesa dos direitos humanos acusados de fazer parte do “aparato civil da ETA”. O processo revestiu-se de um conjunto vasto de irregularidade e culminou na condenação, em Dezembro de 2007, de 46 pessoas a uma pena que, no conjunto, supera os 500 anos e prisão. Ler e Ler.
[4] Termo que deriva do turco spahi que designava os membros de uma topa de cavalaria do império Otomano. Mais tarde, os sepoy eram os nativos da Índia recrutados como soldados ao serviço do império britânico. No País Basco usa-se para referir de forma pejorativa a polícia autonómica basca (Ertzaintza).
Quarta-feira, 14 de Maio de 2008
Em Elorrio: rejeição da “moção ética” e carga brutal da Ertzaintza
Foto: EFEEtxerat exige uma mudança de atitude aos governos espanhol e francês
Artola exigiu o fim do isolamento dentro da prisão, a libertação dos presos que estejam doentes e a eliminação da política de dispersão, que, tal como denunciou, está na origem dos acidentes rodoviários em que se vêem envolvidos os familiares que vão visitar os seus próximos, e dos quais já resultaram tantos mortos e feridos.
Apresentou o caso de Maider González, que no sábado passado se dirigiu à prisão de Burgos para visitar o preso político basco Asier Etxenike, e foi vítima de um acidente. Em virtude do choque que sofreu, foi levada para uma ambulância, onde lhe foram prestados cuidados médicos. Entretanto, uma patrulha da Guardia Civil apareceu no local e, depois de observar que no veículo havia uma embalagem que se destinava à prisão, um dos agentes entrou na ambulância e começou a interrogar González. Quando o médico se deu conta de que o agente a estava a interrogar, ordenou-lhe que saísse da ambulância. Então, os agentes da Guardia Civil confiscaram-lhe o telemóvel e inspeccionaram vários papéis que tinha consigo, tendo levado um deles.
Para além disso, a Etxerat também expôs o caso do preso político Jon Agirre Agiriano, que se encontra doente, para dar um exemplo da “cruel” política penitenciária que os dois estados levam a cabo. Agiriano tem 66 anos, passou os últimos 26 na prisão e apresenta uma condição clínica grave, já que, entre outras complicações, tem uma hérnia discal, sofre de diabetes e de risco de enfarte.
“Pedimos uma mudança de atitude, que os governos espanhol e francês tomem como exemplo o compromisso e a humanidade dos homens e das mulheres que estão hoje a ser julgados na Audiência Nacional, e ajam em defesa dos nossos familiares”, disse Artola.
Manifestação
Por último, fez um apelo à participação na manifestação que terá lugar no próximo sábado em Bilbau, convocada por pessoas que sofreram a repressão na carne, por familiares de presos e perseguidos políticos, e acusados no julgamento contra o movimento pró-amnistia.
ETA destrói quartel de Legutio e mata agente da Guardia Civil
De acordo com informações avançadas pela agência Europa Press, uma furgoneta armada com explosivos rebentou por volta das 3h da madrugada junto ao quartel da Guardia Civil de Legutio, provocando a morte a um agente desta corporação, Juan Manuel Piñuel, de 41 anos, que se encontrava no pequeno edifício de vigilância anexo ao quartel. Outros quatro agentes ficaram feridos em consequência da explosão, tendo sido transportados para os hospitais de Txagorritxu e Santiago de Gasteiz, mas sem que o seu estado seja considerado grave.
Danos materiais
A forte explosão abriu um enorme buraco no solo e causou danos materiais de monta na estrutura do quartel. A potência do explosivo fez ruir a fachada, e a parte do edifício que se encontra de pé mostra fissuras assinaláveis. Toda a zona se apresenta repleta de árvores arrancadas pela raiz, e o muro de protecção também veio abaixo. O impacto da explosão afectou ainda os edifícios circundantes, situados a cerca de 150 metros, que apresentam vidros partidos e outro tipo de danos. A onda expansiva alcançou ainda algumas casas situadas a 500 metros de distância.
Fonte: Gara
Terça-feira, 13 de Maio de 2008
Julgamento contra Gestoras Pró-Amnistia e Askatasuna: agradecimento e reconhecimento pelo trabalho realizado
A sétima sessão deste julgamento serviu para que as últimas seis testemunhas propostas pela defesa agradecessem o trabalho realizado pelos 27 acusados, que enfrentam uma pena que pode ir até dez anos de prisão.
Entre os testemunhos apresentados perante o tribunal, destacou-se o de Mari Carmen Mañas, viúva de Angel Berrueta, assassinado a 13 de Março de 2004, em Iruñea [Pamplona], na sequência dos disparados efectuados por um agente da polícia espanhola. Mañas relatou que o movimento pró-amnistia a ajudou a denunciar o “assassinato” do seu marido e a defender em tribunal que se tratava de um caso de “terrorismo de Estado”. “Prestaram-nos ajuda humanitária, são pessoas extraordinárias, que nos ajudaram a seguir em frente”, afirmou, referindo-se aos processados, a quem agradeceu os esforços que desenvolveram para denunciar o seu caso e para a pôr em contacto com “entes políticos eclesiásticos” de Euskal Herria.
Também esteve presente Kontxi Luna, companheira sentimental de Jose Mari Sagardui “Gatza”. A testemunha realçou que o início da sua relação com o preso se ficou a dever às visitas que lhe fazia na prisão, como integrante de um Comité de Solidariedade com os Presos, e denunciou que sua condenação se prolonga “há já 28 anos e nunca mais tem fim” por “vingança” do Estado espanhol, fazendo com que o zornotzarra seja o preso mais antigo da Europa. Kontxi Luna disse ainda temer que a sua situação mude depois deste processo judicial. “Tenho medo de ficarmos numa situação em que não sabemos a quem recorrer. Quem vai ajudar os presos e as suas famílias?”, perguntou.
Mattin Troitiño, filho e irmão dos presos políticos Txomin e Jon Troitiño, explicou que a sua relação com o movimento pró-amnistia começou depois das detenções dos seus familiares. Seguidamente, afirmou que o seu pai nunca esteve a menos de 500 km de Euskal Herria e que em 2006 lhe agravaram a pena em 11 anos. Belen Aguilar, viúva de Justo Elizaran, morto num ataque do Batalhão Basco-Espanhol, e mãe do preso político Ugaitz Elizaran, explicou a ajuda que recebeu da parte do movimento pró-amnistia.
Por seu lado, Itxaso Idoiaga, médico do Osakidetza [Sistema de Saúde basco], relatou o trabalho de assistência médica aos presos políticos bascos que realiza em colaboração com o movimento pró-amnistia, e afirmou: “diagnosticámos casos de mortes que podiam ter sido evitadas”. Assinalou em seguida: “ O nosso objectivo é que os presos tenham assistência médica”, para acrescentar que também se deve reconhecer que a tortura existe. Por último, Andoni Txasko, porta-voz da Associação de Vítimas do 3 de Março, de Gasteiz, relatou o ocorrido nesse mesmo dia, em 1976, no qual a polícia matou cinco pessoas na capital alavesa. Em 2001, quando se cumpria o 25.º aniversário do massacre, puseram-se em contacto com movimento pró-amnistia, que foi um dos muitos grupos a participarem na organização da mobilização.
Fonte: Gara
Segunda-feira, 12 de Maio de 2008
ETA ataca obras do TGV

Cartaz contra o TGV
A ETA atacou esta madrugada duas máquinas escavadoras nas obras do TGV [comboio de alta velocidade) em Hernani. Depois das sucessivas sabotagens efectuadas pelas populações contra o projecto, a ETA junta-se também a esta luta. No País Basco, a oposição ao TGV é bastante forte.
em Gara.net


