domingo, 17 de agosto de 2008

ETA reivindica três atentados contra adjudicatárias do TGV, num comunicado enviado ao GARA

Comunicado (eus)

Os atentados de Maio, Junho e Julho contra as empresas Amenabar – em Hernani e Zarautz –, Fonorte e Acciona – em Orio – foram obra da ETA e estão relacionados com a ligação destas empresas à construção do Comboio de Alta Velocidade (TGV). Assim o confirma a organização armada num comunicado feito chegar ao GARA, no qual assume também outras acções: a colocação da bomba no El Correo, dos explosivos que rebentaram em Noja e Laredo, e do artefacto que explodiu num retransmissor na serra de Elgea.

O texto destaca expressamente a condição de adjudicatárias do TGV das empresas Amenabar, Fonorte e Acciona, e alonga-se depois em críticas ao projecto. Em relação a isto, o comunicado da ETA insiste que “os interesses que estão por detrás do TGV são alheios a Euskal Herria. Não há um só benefício e, portanto, a única coisa que nos restará será a cicatriz de cimento que atravessará o nosso país de uma ponta a outra”.

Formula a sua crítica a partir de vários pontos de vista. Por um lado, afirma que “cada uma dessas toneladas de cimento enterra o nosso projecto popular”, sob o discurso da “suposta modernidade, do bem-estar e tantas outras palavras vazias”. Paralelamente, acentua o facto de, “também neste caso, não termos tido direito a decidir o que é melhor para o nosso povo”.

E acrescenta que este projecto “é o exemplo mais claro possível da política do PNV e dos seus acólitos. A ganância de alguns tem que ser garantida a todo o custo, sem lhes importar que, com tudo o que estão a fazer, se hipoteque Euskal Herria como projecto”, continua o comunicado.

Aprofundando esta última ideia, a organização armada basca pergunta-se “se um País Basco livre não implica, para o PNV e os regionalistas da sua esfera, um risco incrível, o risco de perder o seu poder e os seus benefícios económicos”.

«Não há atalhos»

A ETA liga esta problemática concreta à situação política geral para reiterar a sua crítica à tentativa de renovar “o abraço de La Moncloa” de há 30 anos. Ao PNV, diz-lhe claramente que o faz porque “a sua sobrevivência política está unida à gestão do Governo de Gasteiz”, e recrimina ao PSOE “a procura da enésima tentativa de assentar a reforma espanhola em Euskal Herria”. Consequentemente, conclui que “a aposta de ambos é, em última instância, uma aposta na guerra, de modo claro”.

Face a isso, a Euskadi Ta Askatasuna insiste em que a única solução passa por um marco democrático que reúna o direito a decidir e a territorialidade basca. E considera que a “paródia”, termo que atribui ao projecto de “pseudoconsulta”, contribui apenas para “ocultar a origem do conflito, esvaziar o direito à autodeterminação e desfigurar Euskal Herria”.

Postas assim as coisas, o comunicado expõe que “o MLNV [Movimento de Libertação Nacional Basco] não dilapidará um ápice das suas forças para procurar um lugar nessa legalidade estrangeira. Poremos toda a nossa força e determinação na libertação de Euskal Herria e continuaremos a construí-la, como até agora. Nesse caminho não há atalhos. A luta é o único caminho!”.

Aviso prévio no ataque ao El Correo

O comunicado da ETA acrescenta também um novo dado relevante para o esclarecimento do atentado contra a tipografia do El Correo, ocorrido em Zamudio na madrugada de 8 de Junho, e depois de muitos porta-vozes políticos terem sublinhado que se tinha realizado sem aviso telefónico prévio. A organização armada precisa que não foi assim. “A ETA quer fazer saber que realizou uma chamada para dar conta da explosão, e que as forças policiais cortaram o telefone depois de terem recebido a chamada, numa tentativa frustrada de apanhar militantes bascos”.

Acrescenta em seguida que estas forças policiais “não quiseram evacuar o El Correo, “colocando em risco a vida dos que ali estavam”.

O comunicado prossegue afirmando que a “ETA continuará a tomar todas as medidas ao seu alcance para não causar danos aos cidadãos”. Dessa forma, chama a atenção para o facto de a responsabilidade ser “por completo” dos “mandatários espanhóis”, na eventualidade de “não fazerem caso” das advertências ou de as tentarem “utilizar de maneira perversa”.

Na altura do sucedido, foi o Departamento do Interior do Governo de Lakua que afirmou que não tinha havido uma advertência telefónica prévia. A deflagração teve lugar por volta das 3h, e derrubou cerca de 40 metros de muro, sem ter causado ferimentos a nenhum trabalhador da tipografia.

Reacções ao último comunicado da ETA (cas)

Fonte: Gara

Actos de sabotagem: em Burlata, atacam sede do PSN e duas caixas automáticas com ‘cocktails molotov’

A sede do PSN [Partido Socialista de Navarra] e duas caixas automáticas do la Caixa e do Banco Santander, situadas na rua Mayor, foram alvo de acções de sabotagem durante a madrugada de sexta-feira, em Burlata [nos arredores de Iruñea (Pamplona)]. Os artefactos incendiários provocaram danos materiais, mas não há danos pessoais a lamentar.

Na sede da formação política, segundo indicavam ontem agências espanholas, o ataque esteve na origem de um pequeno incêndio, que provocou o escurecimento da fachada. Por seu lado, as duas sucursais bancárias atingidas mostravam também sinais do ataque, e nenhuma se encontrava a funcionar.
PSN, Governo de Nafarroa e UPN reagiram as estas acções de kale borroka [violência urbana].

Fonte: Gara

Apontamentos de Tasio ou notas à imprensa com simpatias franquistas

Tasio_Gara [O Governo tentará por todos os meios que Iñaki De Juana não viva nas proximidades de alguns dos familiares de vítimas... / Não sabemos se irá consultar as famílias dos assassinados na guerra civil, famílias que viveram 70 anos com os assassinos dos seus.]

Tasio_Gara [Especialidade olímpica espanhola]

sexta-feira, 15 de agosto de 2008

A ikurriña ao alto ou a identidade de um povo

“A nós, cabe-nos agora mostrar aos rebeldes a nossa determinação de ser livres. Se sairmos derrotados, a próxima geração levantará a ikurriña ao alto e continuará a batalha pela liberdade que nós iniciámos”. Estas palavras de Kandido Saseta, que foi comandante-chefe do Eusko Gudarostea [Exército Basco na guerra de 1936], manifestam o enorme valor simbólico que teve a bandeira basca para aqueles que deram a vida nas trincheiras de 36, em defesa da liberdade e da democracia despedaçadas pelo levantamento fascista. E foi essa clara identificação com a luta contra a imposição dos sublevados que, depois da guerra, tornou as suas cores proscritas, durante os longos anos da ignomínia franquista.

A batalha pela liberdade que Saseta anunciara, encarnada, neste caso, na luta pela defesa da ikurriña, não terminou. Jamais terminou. A sua legalização, em 1977, não foi mais que uma ilusão, a mesma que alguns viram naquele processo de transição política que realmente nunca existiu e que hoje em dia tenta dobrar Euskal Herria até à submissão. Foi Fraga [Iribarne] quem disse que “hão-de passar por cima do meu cadáver, antes de permitir a exibição dessa bandeira”. E aqueles que, como Fraga [Iribarne], nunca chegaram a admitir, nem muito menos a perdoar, a legitimação da ikurriña e daquilo que simboliza, procuram agora recuperar o terreno perdido, amparados na prepotência legal e judicial herdada daqueles sublevados, e na calculada passividade dos que escondem a ikurriña nos seus sumptuosos gabinetes, enquanto espetam com a espanhola nas varandas.

Lizartza, Bilbau, Donostia, Durango, Atarrabia... Em Nafarroa, a ikurriña não pode sequer ondear na rua. Na Bizkaia, em Gipuzkoa e Araba a espanhola está a impor-se, num edifício municipal a seguir ao outro. Em Lapurdi, Nafarroa Behera e Zuberoa, a administração francesa relega o símbolo basco ao estatuto de mero atractivo turístico, afastado de qualquer espaço político ou administrativo. Ontem, em Donostia, centenas de pessoas ergueram a ikurriña, tal como anunciara Saseta, como emblema da luta de um povo que resiste e procura decidir a sua própria liberdade.

Fonte: GARA

Manifestação em Burlata pelos presos doentes e contra a «doutrina Parot»

“Não é um problema dos presos ou dos seus familiares, mas de toda a sociedade”, realçaram na quarta-feira familiares de Pello Sánchez, Mikel Gil, Marilo Gorostiaga e Karlos Pérez. Apelam à mobilização neste sábado em Burlata.

Na apresentação de quarta-feira realçaram o facto de os seus casos não serem os únicos, nem muito menos em Iruñerria [comarca de Pamplona] - mas são especialmente graves. Trata-se de quatro habitantes que deveriam estar em liberdade condicional, de acordo com as leis espanholas; três deles – Pello Sánchez, Mikel Gil e Marilo Gorostiaga – por sofrerem de problemas de saúde graves, e o quarto, Karlos Pérez, porque não só cumpriu três quartos da pena, mas inclusive a pena completa, antes de o período de cativeiro ter sido prolongado através de chamada “doutrina Parot”.

A sua situação será denunciada no sábado com uma manifestação em Burlata a partir das 20h. Partirá do recinto das txosnas [barracas da festa], já que esta localidade celebra agora as suas festas. E os seus familiares apelam à sensibilização de todos os habitantes da capital navarra e das localidades da comarca, baseando-se na premissa de que este “não é apenas um problema dos presos ou dos seus familiares, mas de toda a sociedade”, e, como tal, afirmam que “toda a sociedade tem que lhe fazer frente”.

Tendo estes casos em especial atenção, incidiram na ideia de que para os doentes “é impossível levar um tipo de vida digno” e que nem sequer podem ser atendidos pelos seus médicos de confiança. No geral, concluem, a partir de todas estas situações, que os direitos dos encarcerados estão a ser violados de modo sistemático e que “fica bem claro que eles são utilizados como prisioneiros de guerra”.
Os convocantes da mobilização acrescentam ainda que o objectivo último da ofensiva é o Colectivo de Presos Políticos [EPPK]. “Querem-nos destruir fisicamente, psicologicamente, politicamente», expuseram.

Ijurko, Arizkuren, Oltza...

Na conferência de imprensa de apresentação do protesto previsto para sábado, foram lembrados outros casos de situações graves que afectam moradores de Iruñerria presos.

Recordaram, por exemplo, Hodei Ijurko, “que foi castigado e colocado em regime de isolamento depois de ter sido espancado”, na prisão de Soto del Real. Lembraram também Josetxo Arizkuren, em regime de isolamento 24 horas por dia: “Imaginemos por um momento que apenas podemos falar com alguém durante 40 minutos por semana e com um vidro pelo meio”, pediram os familiares. E aludiram ainda ao jovem de Donibane Eneko Olza; após ter sido condenado a nada menos que dez anos de prisão pela acusação de queimar uma caixa automática, hoje em dia continua preso, apesar de já ter ultrapassado três quartos da pena. Comparam a sua situação com a de Pilar Rubio, a mulher que instigou em 2004 a morte de Angel Berrueta, padeiro do mesmo bairro de Eneko Olza, e que hoje já se encontra em liberdade.

Fonte: Gara

Galparsoro: «A única chave para solucionar o conflito é voltar à via da negociação»


A autarca de Arrasate, Ino Galparsoro, aposta no “retorno à via da negociação e no respeito pelo direito à autodeterminação do povo basco” porque a ilegalização apenas servirá para mostrar “o fracasso do sistema” e não trará “a solução”.

A primeira edil do município guipuscoano afirmou na quarta-feira que tanto a sua detenção e o seu posterior ingresso na prisão como o recurso do Governo espanhol contra o acordo municipal em que a EAE-ANV se dissolveu em Arrasate para fazer passar os seus vereadores a um grupo misto são “tentativas” para “remover a esquerda abertzale do cenário político”, e destacou que pensar que as ilegalizações da EAE-ANV e do EHAK vão solucionar algo é “um verdadeiro fracasso do sistema”.

Numa entrevista concedida à Euskadi Irratia, Galparsoro referiu que seria “incrível” que, num Estado de Direito, se colocasse sequer a possibilidade de poder vir a deter mais autarcas da esquerda abertzale, tal como lhe aconteceu a ela, e afirmou que “fica bem claro que, dentro da estratégia que movem contra nós, pretenderam realizar uma tentativa de ataque também contra os representantes eleitos, e não sei o que se poderá vir a passar”.

Dessa forma, explicou que o acordo em que a EAE-ANV se dissolveu em Arrasate para passar a um grupo misto, “mais do que uma tentativa de evitar a ilegalização, era a única opção para trabalhar na nossa terra e cumprir o nosso programa”. “Não foi uma estratégia para fazer frente à ilegalização, antes o modo de responder ao mandato que recebemos dos cidadãos e aos compromissos que tomámos”, acrescentou.
Nesse sentido, a autarca de Arrasate reiterou que o recurso apresentado pelo Ministério Público do Estado espanhol contra esse acordo municipal é “um passo mais para nos remover do cenário político”.

Para além disso, realçou que “a única chave” para solucionar o conflito, “do mesmo modo que em todos os conflitos do mundo, é voltar à via da negociação e ao respeito pelo direito à autodeterminação do povo basco”.
Fonte: Gara

Arnaldo Otegi só sairá da prisão a 30 de Agosto, mas o Torquemada já se move!

O vice-secretário da Comunicação e porta-voz do PP, Esteban González Pons, pediu hoje ao Governo espanhol que “não caia no engodo” de ouvir o dirigente e porta-voz do Batasuna, Arnaldo Otegi, e que o vigie quando sair da prisão, no próximo dia 30.
González Pons referiu-se desta forma, numa conferência de imprensa realizada em Valência, à informação ontem publicada no diário El Mundo, segundo a qual Otegi se teria dirigido por carta a vários presos da ETA, para lhes pedir que apoiem outra negociação com o Governo.

O porta-voz do PP assegurou que este partido “apoia o Governo de Espanha e que o continuará a apoiar sempre enquanto se mantiver na posição em que se encontra, a de derrotar a ETA”, e, por isso, pediu-lhe que “não oiça a voz da serpente nem caia no engodo que lhe está a preparar”.


E por aqui continuou Sua Excelência, mencionando, de forma não rara, pistolas, gatilhos, gente que dispara e gente que manda, num discurso que não merece tradução e menção integral pela reiteração enjoativa de motivos como “não oiça”, “não caia no logro”, “nenhuma trégua política”, “nenhum diálogo”. Enfim, expressões próprias de agentes políticos interessados na construção da Paz e na busca de uma solução dialogada para os problemas que o seu país enfrenta com o País Basco…

Gora Otegi!

Notícia completa: kaosenlared

quarta-feira, 13 de agosto de 2008

‘100 Razões por que Deixei de Ser Espanhol’, de José Mari Esparza Zabalegi





Apresentação da obra 100 razones por las que dejé de ser español (Txalaparta, 2006) pelo próprio autor, o escritor basco José Mari Esparza Zabalegi, em que este expõe as razões que o levaram a tornar-se independentista.

José Mari Esparza Zabalegi nasceu em Tafalla (Nafarroa, EH), em 1951. Começou a escrever e a publicar na imprensa operária e clandestina nos tempos do franquismo. É um dos fundadores da Altaffaylla Kultur Taldea, na qual publicou vários trabalhos sobre temas históricos e regionais de Navarra. Trabalha como editor desde 1989; actualmente, dirige a editorial Txalaparta.

Bibliografia:
Tafalla vascona (Elkar, 1980), Un camino cortado. Tafalla 1900-1939 (Altaffaylla, 1985), Jotas heréticas de Navarra (Altaffaylla, 1988), Abajo las quintas. La oposición histórica de Navarra al Ejército español (Txalaparta, 1994), Potosí. Andanzas de un navarro en la guerra de las naciones (Txalaparta, 1996), Historia de Tafalla (Altaffaylla, 2001), Réquiem para sordos (Txalaparta, 2004), 100 razones por las que dejé de ser español (Txalaparta, 2006).

Colaborou ainda noutras publicações e em revistas e jornais bascos, com centenas de artigos.

Fonte: kaosenlared

Esquerda ‘abertzale’ convoca mobilização para dia 22, em Bilbau


Apoiadas por vários representantes da esquerda abertzale, Arantza Urkaregi e Marta Pérez compareceram ontem perante a comunicação social para fazer um apelo à cidadania basca para que secunde a mobilização do próximo dia 22, em Bilbau. No “dia grande” da Aste Nagusia, a concentração, que partirá da praça Elíptica ao meio-dia, terá um objectivo bem claro: fazer frente ao actual estado de excepção que Euskal Herria está a viver e reivindicar o direito de todos e todas à autodeterminação.

No âmbito deste apelo, as porta-vozes independentistas explicaram que esta manifestação irá decorrer “num momento político bastante especial” dentro da Aste Nagusia [Semana Grande]. Por um lado, o Município de Bilbau não colocará no mastro a bandeira espanhola às primeiras horas desse dia, como já vem sendo habitual, porque o autarca já a colocou de maneira permanente. “Esse símbolo da imposição do Estado é-nos imposto a nós, bilbaínas e bilbaínos, pelo PNV”, criticaram, recordando ainda que nestas festas também não poderão participar os perseguidos políticos.

Por outro lado e para lá deste contexto específico, fizeram uma leitura da actual situação política, lembrando as actuações esperadas para Setembro contra a esquerda abertzale, “em que pretendem dar uma coloração jurídica a decisões políticas do partido no Governo, o PSOE”. Citaram, como exemplos, a previsível ilegalização do EHAK e da EAE-ANV, as citações a 22 militantes independentistas, a sentença contra o Movimento Pró-Amnistia ou o julgamento contra a Udabiltza, entre tantos outros casos.

Estado de excepção

Todos estes factos, na sua avaliação, “são claros expoentes do estado de excepção que vivemos em Euskal Herria”. Uma situação política que, no parecer da esquerda abertzale, é “muito grave, nos leva até às épocas mais obscuras do franquismo e na qual se dá uma violação sistemática dos direitos da cidadania basca”.

Em relação a esta afirmação, referiram a tortura como o “exemplo mais cru”, recordando que ainda há poucos dias tivemos uma amostra dessa dura realidade, quando a Guarda Civil deteve um jovem em Gasteiz, que passou dois dias em Madrid e saiu da Audiência Nacional com o corpo cheio de marcas e hematomas, depois de ter passado duas vezes pelo hospital, e depois de ter sido “convidado” pelos seus captores a colaborar com a instituição militar espanhola. Uma actuação em que as representantes abertzales observaram “claros indícios de guerra suja”.

Recordaram ainda que Euskal Herria é um país “em que não existe democracia e em que não se pode decidir nem o presente nem o futuro, através da palavra e da decisão da cidadania basca”.

Olhando para a actual situação política, afirmaram que “é evidente que não poderemos tomar uma decisão sobre o nosso futuro se não superarmos o actual marco constitucional”.

Neste sentido, criticaram as últimas declarações de porta-vozes políticos como Unai Ziarreta, presidente do EA, ou Aintzane Ezenarro, eleita pelo Aralar, e também o facto de o PNV ir cumprir a legalidade espanhola, “sem mostrar intenção de superar o actual marco”.

Pouco depois desta conferência, o PP e a plataforma ultra España y Libertad pediram a proibição da manifestação, tendo este grupo anunciado que vai denunciar hoje mesmo os convocantes ao TSJPV [Tribunal Superior de Justiça do País Basco].

Ibai BARRIOS
Fonte: Gara

Duas soltas, para o enjoo...


Tribunal de Justiça da UE permite que Paris extradite um prisioneiro basco

O Tribunal de Justiça da União Europeia resolveu em menos de uma semana a petição de Madrid para que o preso político iruindarra Iñaki Santesteban fosse extraditado pelo Estado francês. O Tribunal Europeu entendeu que, apesar de em 2001 os tribunais franceses terem rejeitado essa petição com base na euro-ordem, agora podem deferi-la, atendendo ao chamado Convénio de Dublin de 1996.

No passado dia 6 de Agosto decorreu no tribunal sedeado no Luxemburgo uma audiência em que participaram os representantes espanhóis, os franceses e a defesa de Santesteban. Recusadas as alegações da defesa do preso basco, Paris já não enfrenta qualquer entrave jurídico para o deixar nas mãos de Madrid.

Fonte: Gara

O porta-voz do CGPJ espanhol defende a pena perpétua contra militantes bascos

Enrique López, porta-voz do Conselho Geral do Poder Judicial (CGPJ), afirmou ontem que a aplicação da pena perpétua a militantes bascos é “plenamente constitucional”. “O nosso tribunal estabeleceu que a pena perpétua pode ser sujeita a discussão, e, passado um cumprimento mínimo da pena, submete-se o sujeito a uma revisão contínua para analisar o seu grau de reinserção”, argumentou.
Fonte: Gara

Polícia francesa detém quatro jovens por pintarem ‘graffiti’, em Donibane Lohitzune


A polícia francesa deteve na segunda-feira, por volta da meia-noite, quatro jovens, um dos quais menor de idade, sob acusação de pintarem ‘graffiti’. A Askatasuna denunciou estas detenções e caracteriza-as como “um novo capítulo na via repressiva que o Estado francês mantém contra o movimento independentista”. A este respeito, recorda “o brutal ataque” policial nas festas de Baiona, as detenções, os julgamentos, as multas e o congelamento de contas de militantes bascos, e a dispersão e o isolamento que sofrem os presos.

Os jovens foram postos em liberdade ontem à tarde, e deverão comparecer perante um juiz a 12 de Setembro. Entretanto, no próprio dia das detenções, cerca de 100 pessoas concentraram-se como forma de protesto em Donibane Lohitzune [Saint-Jean-de-Luz, Lapurdi]. Em Bilbau, 120 pessoas juntaram-se numa concentração a favor dos presos em frente à Sabin Etxea [sede do PNV, erguida sobre a antiga casa de Sabino Arana Goiri].

terça-feira, 12 de agosto de 2008

Contra a desinformação e o bloqueio: «A teoria da peste ou como tudo pode ser ETA»

Como sempre e nos piores casos, a faca da mentira continua a ser de fio duplo e de duplo sentido. Aqui, para desprestigiar os processos de mudança social na América Latina. Ali, exactamente para o mesmo, com o mesmo filão estigmatizador. Dois coelhos de uma cajadada só, o informativo com o hispânico e inquisitorial recurso da teoria da peste.

Choveu mais que muito desde que Alfredo Semprún, o protojornalista – polícia por antonomásia do Franquismo –, publicou alegremente que a ETA dispunha de uma base de submarinos em Baiona. Choveu algo menos, mas sempre sobre o molhado, desde que a francesa Le Nouvel Observateur afirmou sem se despentear que em Hernani cada atentado era celebrado com cordeiros degolados, orgias de sangue e danças rituais. Choveu pouco desde que advogados bascos viram as portas da o­nU completamente fechadas.

O motivo? Um simples fax de inspiração garzonita que impedia a denúncia da violação dos direitos humanos perante organismos internacionais, referindo que tudo é ETA e tudo é a mesma coisa. E eles também. Convém aduzir, neste caso, que depois de três meses de proibição – e sem que o Estado apresentasse prova alguma – voltaram a entrar, com desculpas incluídas.

Por essas rotas de criminalização e bloqueio informativo caminha também hoje a internacionalização do conflito basco. Contudo, após a rotura da última tentativa de processo de paz, esta aposta inquisitorial tem somado números inteiros. Em Setembro passado, a Embaixada espanhola na África do Sul solicitou os serviços de Teo Uriarte e Javier Elorrieta, ambos da Fundación para la Libertad, para neutralizar “a desinformação” que o Congresso Nacional Africano (ANC) possuía sobre o ‘conflito basco’.

Mas esta estratégia não paira apenas sobre governos, movimentos e colectivos de outros povos que prestam atenção ao conflito basco. Também sobre cada uma das personalidades internacionais que tomaram uma posição a favor do diálogo: Cossiga ou Chomsky, Hebe de Bonafini e as Mães da Praça de Maio, o subcomandante Marcos ou Rigoberta Menchú. Rios de tinta que eram balas contra um processo de negociação.

Essa ofensiva actual teve o seu ponto de inflexão diplomática com a chegada de Jaime Mayor Oreja ao Ministério do Interior. O gabinete de Aznar primou nessa linha de fogo informativo, onde as embaixadas se converteram em centros de contra-informação, aplicando um novo plano ZEN (Zona Especial Norte, que Barrionuevo esboçou em 1984) de abastecimento internacional.

E assim a metástase do “também tudo é ETA” aplicada em qualquer ponto do Estado a qualquer forma de dissidência que tenha uma leitura diferente do que se passa em Euskal Herria (o okupa catalão, o mineiro asturiano, o autónomo madrileno e até o desobediente andaluz de Casas Viejas que possuía um manual de euskara) já se fez sentir em águas internacionais. Nada de novo sob o sol, então. Porque não é a primeira vez. Em 1998, o PSOE e Joaquín Almunia plantaram-se no México para equiparar a ETA e o EZLN [Exército Zapatista de Libertação Nacional]. Aquelas declarações serviram fundamentalmente para anular o potencial do posicionamento do Parlamento espanhol, denunciando o massacre de Acteal, no qual morreram 45 civis, 16 deles menores. Ambos os Estados, solidariamente, ocultando os seus crimes, as suas misérias e vergonhas.

Isso é, ao fim e ao cabo, a guerra da informação. E a sua lógica devastadora. Síntese? Embora o sol nunca se ponha no império, noite e dia aumentam a repressão. Em formato de desinformação. Além-mar e espetando estacas na Flandres, em Caracas, Joanesburgo ou Quito. E a sua longa lista de empestados: que somos todos nós, as pessoas que não prestam vassalagem à sempre sinistra razão de Estado.

David FERNÁNDEZ

Fonte: kaosenlared

PP e PSOE negociarão novas medidas para perseguir os ex-presos bascos


Contar com uma das legislações penais mais duras contra a dissidência política não parece ser suficiente para os governantes espanhóis. O PSOE e o PP estudam a possibilidade de subscrever um acordo para que os ex-prisioneiros políticos bascos sejam perseguidos depois de terem cumprido a pena imposta e recuperado a liberdade. As conversações entre ambos os partidos ponderam inclusive a possibilidade do controle policial.

Deverá ser em Setembro próximo que o PP e o PSOE tornem efectivo, mediante uma rubrica, o pacto que andam actualmente a examinar, e que tem como objectivo perseguir os presos políticos bascos mesmo depois de terem cumprido a pena imposta e de terem recuperado a liberdade. Juntamente com a reforma do Conselho Geral do Poder Judicial, a reunião entre José Luis Rodríguez Zapatero e Mariano Rajoy incluía o acordo sobre um conjunto de medidas para perseguir os reprimidos políticos. O PP e o PSOE usaram a libertação de Iñaki de Juana como desculpa para arremeter de novo contra os bascos encarcerados.

O PP, por seu lado, orienta a sua iniciativa sobre as medidas que existem no Código Penal espanhol, mas que, em seu entender, não se aplicam de forma sistemática. O PSOE, contudo, pretende reforçar a figura do juiz. A tomada de decisões sobre os presos contaria, desta forma, com uma maior elasticidade, sujeita ao critério e à interpretação que o magistrado realizar.

Controlados pela polícia
No que estariam de acordo ambas as formações é na escassa margem de manobra que a legislação espanhola faculta, na sua perspectiva, para ampliar as actuações contra os militantes bascos. A este respeito, na informação de ontem realça-se que, graças à reforma do Código Penal de 2003, os bascos agora julgados podem ficar na prisão por um período de 40 anos.

Tanto o PP como o PSOE se opuseram à aplicação da pena perpétua, mas na prática ela já é aplicada aos presos políticos bascos. Seria este o caso dos bascos a quem se aplicou a doutrina que o Supremo Tribunal espanhol estabeleceu há já dois anos, também nessa altura sob o impulso gerado pela iminente libertação de um prisioneiro e sob o efeito de uma enorme campanha mediática.

Entre o conjunto de medidas que colocam como uma possibilidade, além das que se referem ao ressarcimento económico e à proibição de se aproximarem ou viverem perto de alguma vítima, também estudam a hipótese de os ex-presos políticos bascos serem controlados pelas Forças de Segurança do Estado. “O enquadramento legal desta vigilância assenta em que a missão da polícia é prevenir o delito”, refere o El País. Como em todas as medidas anteriores dirigidas contra os independentistas bascos, também neste caso o critério que irá reger a tomada de decisões versará em torno do “arrependimento” do prisioneiro e daquilo que, na perspectiva dos espanhóis, supõe a “reinserção”.
Fonte: Gara

Centenas de piratas conquistam Donostia para exigir umas festas populares

Às primeiras horas da manhã, os comerciantes e os empregados de hotelaria dos estabelecimentos do porto de Donostia andavam a preparar as suas lojas e esplanadas. As pessoas passeavam pela zona ou dirigiam-se para a praia, de toalha na mão. Mas havia algo que não era comum no porto donostiarra, e os transeuntes interrompiam os seus trajectos para contemplar uma imagem inédita durante o resto do ano. Jovens e mais jovens vestidos de piratas iam-se juntando, procedentes dos cinco cantos do mundo.

Como em cada mês de Agosto, de há seis anos para cá, os piratas dispunham-se a abordar Donostia, e a Aste Nagusia [Semana Grande]. Mais de mil corsários adornavam o porto com as suas bandeiras, onde se podiam ler todo o tipo de mensagens reivindicativas. Os jovens preparavam-se para montar os seus barcos, com o objectivo não dissimulado de abordar a Kontxa na parte da tarde. Tábuas, paletes, cordas, cabos de esfregonas, cones, tubos ou qualquer outro instrumento serviam para montar uma jangada. À sua volta, inúmeros curiosos contemplavam aquele espectáculo.

Depois do almoço, alguns piratas continuaram a trabalhar na sua jangada; enquanto outros se dispersaram pelos bares da Alde Zaharra [Parte Velha], onde não faltaram os copos de rum. Com a goela bem quente, às cinco da tarde estavam todos preparados no porto, e com a bandeira da caveira no mastro.

Antes de se lançarem à água, desde o barco principal, onde se encontrava Ezkila, o capitão dos piratas, felicitaram os participantes “por tornar possível que Donostia tenha umas festas populares e de tanto êxito”. Lançaram o txupinazo e gritaram: “Abordatzera!” [À abordagem!].

À saída, a canção dizia “itsasoko pirata gogorrak gara gu” [somos piratas do mar muito fortes], e assim o demonstraram na água. Embora alguns não tenham conseguido sair do porto “por problemas técnicos”, quase todos os aventureiros chegaram ao seu destino. O barco do capitão Ezkila acompanhou os piratas em todo o trajecto. A partir dessa mesma embarcação, a electrotxaranga The Txortains animava a viagem.

Pouco a pouco, as jangadas avançaram pelo mar adentro, e a expectativa aumentou na praia quando surgiram as primeiras tripulações. As duas primeiras balsas, que iam abrindo caminho, conquistaram a Kontxa e ali colocaram a bandeira da caveira, o que provocou grande euforia entre os piratas.
Poucos minutos passados e a praia era sua.

Um êxito cada vez maior

Embora a cada ano pareça que o já alcançado não se pode superar, a abordagem dos donostiarras bate recordes em cada nova edição. E assim aconteceu desta vez, já que se ultrapassou um milhar de participantes.

Em relação ao público, houve grande expectativa nos arredores do porto ao longo de todo o dia de ontem. Sobretudo na hora da abordagem, não havia um lugar vazio no molhe. O caminho que dá acesso a Urgull, e ao longo de todo o gradeamento do porto até à zona da Câmara Municipal, também estava repleto de gente. E também houve quem contemplasse todo o evento na água. Não foi menor a excitação na praia da Kontxa, com a chegada dos piratas e da electrotxaranga.

Entre os espectadores, eram tantos os miúdos como os graúdos. E é de destacar a grande presença de turistas, embora seja mais que certo que não lhes tenha chegado qualquer notícia sobre este acontecimento nos postos de informação turística. Curiosamente, o barco turístico que se dirigia para a ilha de Santa Clara, que em ocasiões como esta costuma ir cheio, circulava meio vazio.

Sacos ecológicos

Por outro lado, para a construção das jangadas, os organizadores procuraram divulgar a utilização de sacos de plástico ecológicos, de encher, em vez dos habituais bidões, “por motivos de contaminação”. De acordo com Iñaki, um dos organizadores, “as pessoas entenderam a mensagem e apoiaram a iniciativa, sendo que a maioria optou por utilizar os sacos ecológicos, em vez dos bidões”.

Para animar o ambiente no porto, e para que o trabalho de construção fosse mais ameno, os piratas montaram uma pequena emissora de rádio no porto, um costume que vem já de anos anteriores.
Contudo, pouco depois de passarem as primeiras canções, a Polícia Municipal apareceu no local com ordens de suspender a emissão de rádio, supostamente porque “o ruído incomodava os moradores e os que estavam a trabalhar”. De acordo com os membros dos Donostiako piratak, “esse argumento é absurdo, tendo em conta que estamos na Aste Nagusia, e que ruído como esse é bastante habitual”. Como consequência, atrasaram o arranque da programação até às 14h, e durante a tarde não foram colocados mais obstáculos à animação.

Janire ARRONDO

Fonte: Gara

segunda-feira, 11 de agosto de 2008

As festas do gelado e dos fogos de artifício... e dos Piratak

“Iruñea tem as peñas; Bilbau, as comparsas; e Gasteiz, os blusas. Mas, o que é que tem Donostia?”. Embora hábil, a questão colocada por uma jornalista a Odón Elorza há quatro anos não chegou para fazer corar o autarca de Donostia. Mostrar-se-á seguramente reconfortado quando, como acontece cada ano desde há mais de um século, vir como o diário Abc traz para a primeira página o arranque “das maiores festas de Espanha”. Aquele era o segundo ano em que, apesar dos contínuos entraves colocados pelo Município, os Donostiako Piratak ofereciam uma alternativa a milhares de cidadãos que renegam umas festas elitistas organizadas por empresas privadas e que não dão espaço à participação da cidadania. Tudo isso, apesar das “barraquinhas” municipais criadas ad hoc para ser “a melhor cidade” em tudo; sempre para que se veja e repare.

Desde que os Bourbons escolheram Donostia, nos finais do século XIX, como destino de férias, aquela cidade que apenas contava com muralhas e areia por todo o lado começou a promover o elitismo. Com as idas e vindas de Franco, o quartel de Ondarreta enchia-se de donostiarras rebeldes; agora, mais de 30 anos depois da sua morte, os que continuam a rebelar-se perante o estabelecido permanecem desprezados.

Seguramente, naquela entrevista Elorza não imaginava a dimensão e o potencial que iria adquirir aquela “abordagem” à Kontxa [ou La Concha], que cativou, e continua a entusiasmar, milhares de donostiarras e guipuscoanos. Embora sem grandes apetites, amanhã o autarca também terá que o reconhecer.

Apesar de a memória de muitos não guardar já as excitações que se viveram com o arrebatamento das txosnas, o alcançado pelos Donostiako Piratak não é de pouca monta: demonstraram que na capital guipuscoana também é possível realizar umas festas organizadas pelo povo e para o povo. E o Município já se apercebeu disso. Depois de dezenas de anos, a Aste Nagusia [Semana Grande] arrancou pela primeira vez num sábado, precisamente quando tinham início os eventos alternativos dos Piratak. A equipa de Elorza continua a fazer orelhas moucas ao apelo que estes jovens fizeram há muito para criar uma comissão de festas entre todos os grupos, organismos, associações e colectivos de Donostia.

O cartaz com quatro gelados a fazer de conta que são foguetes pirotécnicos volta a lembrar que, por infelicidade, as de Donostia continuarão a ser “as festas mais belas de Espanha”... para o Abc. E ainda mais com a bandeira espanhola que o PSE impôs no edifício da Câmara Municipal. Mas que não adormeça o vigia, porque esta semana poderá ser a bandeira da caveira a ondear no mastro municipal.

Gari MUJIKA

Fonte: Gara

«A ikurriña deve ondear porque democraticamente é assim, não por teimosia minha»



Peio GURBINDO, autarca de Atarrabia (Nafarroa Bai), entrevistado por Ander PEREZ

A 28 de Setembro de 1977, os habitantes de Atarrabia decidiram em referendo que a ikurriña é uma das “bandeiras oficiais” da localidade. Como viveu essa data?

Eu tinha então 13 anos, mas lembro-me muito bem porque eram tempos politicamente especiais, que vivíamos muito intensamente. Tínhamos aprendido a conviver com a ikurriña, apesar de ter estado ilegalizada, e víamo-la como algo nosso, algo natural. Hilario Eransus, mesmo sendo um autarca posto “a dedo”, teve uma atitude democrática a toda a linha, que foi a de realizar um referendo. Lembro-me de o ter comemorado com os meus amigos.

O facto de içar a ikurriña no mastro no 30.º aniversário daquele referendo foi uma mostra de respeito pela decisão popular?

Pareceu-me uma data muito bonita para que a ikurriña voltasse a ondear, mesmo sem ser na Câmara Municipal, porque a lei – com que não concordo – não o permitia de forma oficial, mas sim na nossa praça mais emblemática. Tem uma carga simbólica, naturalmente; recorda-se o referendo de 1977 e o mais puramente democrático, que é consultar o povo sobre os temas que interessam aos habitantes.

Após a sentença, antepõe-se a legalidade à legitimidade da decisão popular?

Colocámos a ikurriña porque creio que é uma bandeira do povo de Atarrabia, um símbolo como o é o escudo da localidade. Além disso, o referendo de 1977 foi votado em sessão plenária municipal em 2007, pela maioria dos representantes dos habitantes de Atarrabia, que voltaram a
reconhecer como sua a ikurriña e, de passagem, rejeitaram a Lei de Símbolos [de Navarra]. A sentença não diz que estamos a infringir nenhum artigo, pelo que se trata de uma sentença totalmente política, porque só diz que estamos “a burlar o espírito da lei”. Portanto, julgam-se intenções. A sentença, para além do mais, diz textualmente “certamente não ondeia no edifício oficial”, pelo que nos dá razão. Iremos recorrer dela e estamos a estudar hipóteses para o caso de o recurso ser denegado.


Pensaram nalgum mecanismo para que a sociedade de Atarrabia se possa posicionar, tal como o fez em 1977, em relação à ikurriña?

Estamos à procura de soluções, mas não posso adiantar nada para não mostrar o jogo ao inimigo. O que fica claro é que o povo de Atarrabia aprova a ikurriña como sua. A ikurriña deve ondear em Atarrabia porque democrática e legitimamente tem que ser assim, não por teimosia minha.


Fonte: Gara

Movimento Pró-Amnistia denuncia atitude da Ertzaintza em relação ao preso Mikel Ibañez

O preso político elgoibartarra Mikel Ibañez, que se encontra gravemente doente e que passou as últimas semanas no Hospital Donostia, em virtude dos tratamentos médicos que o seu estado requer, recebeu alta e vai continuar a cumprir a pena de prisão em regime atenuado no seu domicílio familiar.

Ao ser posta ao corrente deste facto, a Ertzaintza pediu à Audiência Nacional que coloque ao prisioneiro basco uma pulseira de controle telemático, com o argumento de que assim se evitariam períodos de vigilância prolongados junto ao seu domicílio e se “diminuiria o risco de um atentado contra os agentes de guarda”. A Procuradoria apoiou a petição da polícia autonómica, enquanto os representantes jurídicos de Ibañez a rejeitaram, recordando que, dada a gravidade do seu estado de saúde, não existe risco de fuga, requisito imprescindível para que se adopte uma medida deste calibre. O juiz dará a conhecer a sua decisão nos próximos dias.

O Movimento Pró-Amnistia denunciou com dureza a atitude da Ertzaintza, e afirmou que “o pedido de imposição de uma pulseira telemática a uma pessoa que sofre de cancro nos mostra com claridade onde se situam a humanidade e a ética deste corpo policial”.

Na sua perspectiva, o objectivo desta pulseira “não é garantir a segurança dos ertzainas, mas fazer chantagem sobre o preso, e pressioná-lo”. “O PNV e o tripartido dizem-nos, com atitudes como esta, que se juntam à política cruel e violenta que se está a levar a cabo contra os presos políticos bascos”, acrescenta o Movimento Pró-Amnistia numa nota de imprensa, criticando o facto de, “em vez de reclamarem a libertação dos presos que se encontram nas prisões em situações de extrema gravidade”, as formações que governam em Lakua adoptarem atitudes como a agora denunciada.

«Olhar para o outro lado»
Para o Movimento Pró-Amnistia, estes partidos estão constantemente a “olhar para outro lado, evitando encarar as barbaridades” que se estão a cometer nas prisões – entre as quais cita a prisão perpétua, a situação dos presos gravemente doentes, o isolamento, os espancamentos e a política de dispersão –, e “quando é chegada a sua vez de fazer algo relacionado com este tema, fazem-no em prol desta política penitenciária selvagem”.

“Os dois estados insistem na aposta para levar os presos políticos bascos a morrer nas prisões, e o que tem vindo a acontecer nos últimos meses prova que têm intenção de seguir por essa via”, acrescentam na nota de imprensa, mencionando os presos aos quais se aplicou a doutrina da pena perpétua, o aumento do número de presos doentes e os acidentes causados pela política de dispersão.

Perante isto, o Movimento Pró-Amnistia apela à sociedade basca para “fortalecer e multiplicar” o trabalho em defensa dos direitos dos perseguidos políticos bascos.

Fonte: Gara

Tortura de Ailande nas mãos da Guarda Civil – “Quando me disse a hora, perguntei-lhe de que dia”


O dia 4 de Agosto é uma data especial para os gasteiztarras, mas para Ailande Hernáez o dia 4 de Agosto de 2008 será um dia seguramente para esquecer. Apenas sete horas depois do início das festas, quando se encontrava na praça bastante central de Fariñas, este jovem viu como um número indeterminado de indivíduos o abordou, o atirou ao chão e lhe começou a bater e a insultar. A partir daí, acabaram-se as festas e começou um dia e meio de pesadelo, do qual está agora a tentar recuperar, na companhia dos seus seres queridos.

Os seus captores acreditavam, em qualquer caso, que o tormento do jovem gasteiztarra fosse ainda mais longo e cru, mas o juiz da Audiência Nacional Santiago Pedraz levantou o regime de incomunicação, uma decisão infelizmente insólita quando se trata de um detido basco, e os planos dos guardas civis que tinham Hernáez em seu poder viram-se parcialmente frustrados.

A actuação deste magistrado, que já foi objecto de outras campanhas pouco favoráveis, recebeu duras críticas por parte da caverna mediática e de responsáveis policiais, como o secretário geral do Sindicato Unificado da Polícia (SUP), José Manuel Sánchez Fornet, que afirmou na quinta-feira passada que “deveriam atirar cocktails molotov todos os dias contra a casa do juiz Pedraz, que era para ver como o interpretava”. Nem é preciso dizer que, se for outro que não Sánchez Fornet ou uma personagem do género a atrever-se a dizer que há que atirar cocktails a um juiz (ou a quem quer que seja), já sabe onde vai parar directamente. O próprio magistrado tomou conta do assunto, e na sexta-feira interpôs uma queixa perante o Conselho Geral do Poder Judicial, tendo inclusive os sectores mais conservadores da magistratura qualificado como “inapropriadas” as declarações do polícia.

«Um subiu para cima de mim e começou a saltar»

Em qualquer caso, um dia nas mãos da Guarda Civil pode ser toda uma vida, como o próprio Hernáez relata ao GARA no dia seguinte ao regresso a Gasteiz, a sua casa.
Conta que, após a violenta detenção, “levantaram-me, atiraram-me pelos ares e meteram-me dentro”. Como lhe taparam o rosto, não pode especificar a que edifício da capital alavesa foi conduzido nesse momento, embora se lembre que havia muita gente à sua volta, e descreve, ainda afectado, o que ali se passou. “Conforme entrámos, atiraram-me outra vez para o chão e começaram a provocar-me. Um deles subiu para cima de mim e começou a saltar sobre as minhas costas, enquanto estava de barriga para baixo, e não pararam de me ameaçar, dizendo-me que já tinha lixado tudo, e que ia apanhar a valer”. Este jovem gasteiztarra também precisa que lhe enfiaram um saco na cabeça e que o baixaram até ao nariz, ameaçando fazê-lo descer pela cabeça abaixo caso não falasse, e que lhe puseram uma manta à volta do pescoço e a apertaram até ao ponto de asfixia...

Para além disso, explica que os seus captores procuraram confundi-lo sobre o corpo policial a que pertenciam, já que, se no momento da detenção gritaram “Forças de Segurança do Estado” e logo explicaram que eram guardas civis, ao longo do seu período de cativeiro também lhe disseram que eram ertzainas.

A Hernáez, que nas horas que esteve nas mãos da Guarda Civil passou por dois centros hospitalares, em Gasteiz e em Madrid, também não lhe indicaram onde se encontrava, até que o conduziram à capital espanhola e lhe disseram que tinha sido levantado o regime de incomunicação. Questionado sobre o tempo que tinha passado entre a detenção e o momento em que lhe disseram que não estava sob incomunicação, a resposta é contundente: “Umas quantas tareias”. Porque é nesse espaço de tempo que os maus tratos foram mais vincados e as ameaças, mais duras. “Meteram-me numa espécie de calabouço, onde me interrogaram, sempre com ameaças, procurando que implicasse outras pessoas. Eles mesmos me davam nomes, dizendo que já sabiam tudo, que tudo o que dissesse ia melhorar a minha situação. Suponho que será o típico dentro do que costumam dizer”, refere.

Tudo isto aconteceu em Gasteiz, seguramente coincidindo no tempo com o momento em que os habituais porta-vozes políticos e institucionais se aproximavam dos microfones para condenar o ataque à Subdelegação do Governo espanhol, ao qual fontes policiais ligaram a detenção deste jovem, algo que ele negou perante o juiz. Sobre os maus tratos – logo confirmados – que Ailande podia estar a sofrer não disseram nada.

«Queremos conhecer-te»

Quando lhe anunciaram que iam para Madrid, “disseram-me que ia flipar, que aquilo que me tinham feito não era nada comparado com o que iam fazer”. Foram num automóvel, quatro agentes e ele, e conduziram-no a uma esquadra, embora ali “já começassem a mudar de tom”. Explica que a partir de então insistiram no pedido de colaboração.

Este é um dos aspectos mais escabrosos do relato, já que lhe chegaram a marcar datas e lugares de encontro para se pôr em contacto com eles, no caso de aceder a colaborar. “Diziam-me que ‘já chega de falares contra a parede e nós contra a tua nuca’, ‘queremos falar cara a cara’, ‘queremos conhecer-te um pouco melhor’. Eu respondi-lhes que já sabiam quem era – prossegue o jovem –, ao que me responderam que ‘sim, sabemos quem és, mas não te conhecemos’”. Afirma também que os guardas civis asseguraram que “fazemos isto com um monte de gente. O que acontece é que ninguém se apercebe, porque nós somos profissionais, dedicamo-nos a isto. E isto é o mais normal, todo o mundo passa por isto e uma percentagem, sim, cede”. Estas palavras eram acompanhadas, claro, por duras ameaças, que tinham a ver com o que lhe iam fazer se não colaborasse.
Opina ainda que, à vista dos comentários que lhe fizeram, tê-lo-iam andado a seguir.

A advogada de Hernáez chegou à esquadra por volta das 22h de dia 5, terça-feira, mas foi só duas horas depois que pôde falar pela primeira vez com o seu cliente. Esteve duas horas à espera no mesmo edifício em que continuavam a interrogar Ailande. À meia-noite pôde finalmente falar com o jovem, ou seja, 23 horas depois de se ter dado a detenção.
Neste momento do relato, vem à tona uma mostra do aspecto traumático da sua experiência. Afirma que perguntou à sua advogada que horas eram, para se orientar, e quando ela lhe respondeu que era meia-noite, ele replicou: “mas de que dia?”. É que pensava que era quinta-feira, quando ainda era terça.

A declaração policial realizou-se na presença da advogada, com uma pessoa a tomar notas e outras duas encapuçadas, atrás. “Isso contou-me a minha advogada, porque eu não conseguia olhar para trás em momento algum. Em todas as mudanças de um sítio para o outro, para o que quer que fosse, ordenavam-me que olhasse para o chão, com uma camisola ou uma manta na cabeça, ou com um verdugo a tapar-me a cara”, recorda.

Concluída a declaração policial, e já à espera de comparecer perante o juiz, o trato foi diferente, e até lhe trouxeram uma sandes, “que me custou uma eternidade a comer”.
Na presença de Pedraz, denunciou os maus tratos sofridos, e assinala que se mostrou surpreendido ao ver que o magistrado pelo menos prestava atenção às suas palavras e fazia gestos à secretária judicial para que não o interrompesse. Na sua apreciação, foi “correcto”.
Após a declaração, foi novamente para os calabouços, à espera da decisão do juiz. Este impôs-lhe uma fiança de 6000 euros. Quando os seus parentes abonaram esta quantia, pôde regressar a Gasteiz, às suas ruas, de onde um número indeterminado de indivíduos o tinha levado um dia e meio antes.

Iker BIZKARGUENAGA

Fonte: Gara

sábado, 9 de agosto de 2008

Em Donostia, milhares exigem mudança política e denunciam estado de excepção

«Um sistema de direitos, essa é a apologia da esquerda abertzale»

«Salbuespen egoerari stop. Euskal Herriak autodeterminazioa» [Stop ao estado de excepção. Autodeterminação para o País Basco]. Isso se podia ler na faixa que abriu caminho a cerca de 5000 homens e mulheres que se concentraram hoje, em Donostia, para denunciar a situação de excepção que sofre este país.

A marcha arrancou com pontualidade às 17h30, entre aplausos e gritos que exigiam a independência e a democracia para Euskal Herria. Ikurriñas e bandeiras de Nafarroa ondearam durante todo o percurso, e as palavras de ordem a favor dos perseguidos políticos ou contra o PNV e o estado de excepção não cessaram, tudo sob um sol de justiça.

Depois de percorrer o centro da capital, a marcha voltou a desembocar frente à Câmara Municipal, onde Agustín Rodríguez, cabeça de lista da esquerda abertzale nesta cidade, tomou a palavra para exigir uma mudança política “de peso” para o conjunto do país.

Após ter destacado que, hoje em dia, todos os direitos da cidadania basca foram “infringidos”, advogou uma mudança baseada no direito à autodeterminação e na territorialidade. “Um sistema de direitos e liberdades que passem do papel aos factos. Essa é a apologia que fazemos”, precisou Rodríguez perante uma importante expectativa mediática.

Na sua perspectiva, Euskal Herria “não tem lugar” na Constituição espanhola e é esta que “impede” a livre determinação dos seus cidadãos. Como exemplo, referiu-se à consulta convocada por Juan José Ibarretxe e à viagem efectuada pelos seus defensores, esta mesma semana, ao tribunal máximo espanhol. “Em frente a Madrid de joelhos”, ironizou Rodríguez.

Para além disso, recordou que nas últimas semanas apenas se especificou que a consulta não é tal. “Que não é um referendo, que não altera o sujeito decisório, que não é vinculativa, que não põe em causa o marco jurídico actual... Então, para quê esta consulta? Para quê tanto barulho?” questionou-se o interlocutor, entre aplausos dos assistentes.

Sem perder o tom humorístico, afirmou que assim que o Tribunal Constitucional vetar definitivamente a Lei de Consulta “tudo continuará na mesma, continuaremos no campo de jogo celebrado há 30 anos, em que o árbitro é Madrid e as leis são marcadas pelo Tribunal Constitucional”. Neste ponto, resumiu que, “se és fiel a Madrid, vais parar à Petronor – em alusão a Josu Jon Imaz –, e se o és a Euskal Herria, acabas na prisão”. A multidão respondeu com gritos de “PNV espanhol”.

O caminho, um novo marco
Rodríguez criticou a atitude tanto do PNV como dos seus sócios, por entender que “brincam com as ânsias deste povo para engrossar a sua votação”. “É ruim a este ponto, a classe política deste povo”, sentenciou o donostiarra.

Face a isto, defendeu a necessidade de movimentos “de peso” para alcançar um novo marco. Um marco que, no entender da esquerda abertzale, deve estar cimentado na territorialidade e no direito a decidir, de modo a que todos os projectos possam ser defendidos. Referiu, neste sentido, a necessidade de um acordo entre os diversos agentes de Euskal Herria.

Oihana LLORENTE

Fonte: Gara

Localizam três artefactos explosivos, em Arrangoitze e na linha ferroviária


A polícia francesa desactivou ontem de manhã três artefactos explosivos “artesanais e de fraca potência” no município de Arrangoitze (Lapurdi) e no troço ferroviário entre Ondres (Landas) e Bokale, na sequência de um chamada anónima que alertou de madrugada os Bombeiros de Pau para a colocação de cinco bombas em cinco pontos distintos de Lapurdi e Nafarroa Beherea [dois dos territórios de Iparralde ou País Basco Norte]. Depois da chamada de aviso, que se realizou pouco depois das 4h da madrugada, a polícia francesa procedeu, a meio da noite, à evacuação de mais de 1200 veraneantes.

O albergue Ostape de Bidarrai, o casino de Biarritz, o centro de férias que a cadeia VVF possui em Angelu, outro centro de férias de Arrangoitze e o troço da linha ferroviária que une o município de Ondres (Landas) e o de Bokale (Lapurdi) foram os lugares a que o comunicante anónimo se referiu na chamada como sendo aqueles em que tinham sido colocados cinco artefactos explosivos.

Se, ao início da manhã, as emissoras de rádio falavam sobre a colocação de cinco bombas em Ipar Euskal Herria e nas Landas, posteriormente a versão oficial indicou que foram apenas três os artefactos encontrados.

A colónia de férias Pierre et Vacances de Arrangoitze foi o primeiro lugar onde a polícia encontrou um artefacto ainda sem explodir. No mesmo município, foi também desactivado o segundo, que estava colocado junto ao posto de turismo.
O terceiro foi encontrado na linha férrea entre Ondres e Bokale. Em consequência do explosivo localizado nesse acesso ferroviário a Baiona, o serviço de comboios sofreu fortes perturbações. Passadas as 10h, diversos testemunhos realçavam que os controles policiais na estação da capital de Lapurdi se mantinham apertados.
Fonte: Gara

Manifesto pela língua


Tasio-Gara [Como alguns entendem a língua comum]

Desde há uns anos para cá que tenho razões crescentes para me preocupar, no meu país e noutros que visito, com a situação da língua castelhana, que, como bem indica a designação, provém de Castela. Eu não sou castelhano, e olhem que gostaria pelo menos de o experimentar, mas nasci num outro sítio e já se sabe que a natureza não se escolhe, apesar do dito de Gabriel Celaya sobre o nascer e o pastar. Conheço a língua, como se pode ver por estas linhas [texto original em castelhano], e expresso-me habitualmente nela, embora deva acrescentar que não é a única. Com os meus filhos, a mãe deles e a maior parte dos amigos, expresso-me em basco (esse idioma que a Academia da Língua espanhola define como “o que é tão confuso e obscuro que não se pode entender”), navego na Internet e relaciono-me com a comunidade internacional em inglês e, graças a essa língua, reconheço-o, entendo-me com meio mundo. Em francês leio um par de revistas de publicação semanal e os livros que me fornecem os colegas de uma editora com que colaboro, e, por fim, pecando por pedante, posso-lhes ainda dizer que há mais de 25 anos ganhava a vida a ensinar esperanto, essa língua carregada de utopia, inventada por um tal de Zamenhof e que eu aprendi nos EUA com um poliglota natural de Bilbau.

Sempre soube, porque os membros da minha família foram picados durante umas quentes férias estivais pelo mosquito da curiosidade, que um antepassado meu andou por pedreiras castelhanas e deixou descendência por essas terras, mas foi há tanto tempo que se perdeu o rasto. Mas, oiçam, isto da curiosidade agora tem remédio, desde que um laboratório norte-americano faz provas de ADN, confidenciais, segundo dizem, por pouco mais de 100 dólares. E como na minha idade os caprichos já são poucos, enviei de imediato para a morada indicada, efectuado o pagamento correspondente, o kit que previamente me facultaram. Poucas semanas passadas e a resposta provocou-me uma tremenda comoção, e graças a ela fiquei a saber de numerosos ramos étnicos que se mesclaram no meu sangue, o que me provocou, para além de tudo, uma grande emoção. Hoje, aproveito qualquer encontro na intimidade para dar a conhecer aos mais próximos o relatório sobre a mescla singular nos glóbulos do meu sangue.

Pela descrição das minhas origens, soube de antepassados no Chile, o que me reconforta, pois uma das praças da sua capital, mais a paragem de autocarro correspondente, tem o meu apelido. No entanto, os antepassados não cruzaram o oceano no sentido do poente, mas no sentido contrário. Perplexo, descubro na biblioteca que aqueles cujos restos correm pelo meu sangue falavam kunza e que a língua, espalhada pelo deserto de Atacama, foi arrasada pelos colonizadores espanhóis que levavam a sua para a conquista e o latim do missal para assegurar a salvação. Causou-me um profundo impacto o conhecimento de que aqueles autóctones eram assados na grelha, para prologar o seu sofrimento, e que os cruéis cruzados mofavam das suas vítimas na língua do grande Cervantes.

A pista do ribonucleico decifrado pelo laboratório levou-me até não muito longe de Atacama, a zonas também desérticas onde os Wari, Paracas e Nascas desenvolveram as suas culturas antes da chegada das espadas e do rosário. Alegrou-se o meu ânimo com semelhante pedegree, mas logo esmoreceu ao inteirar-me que os seus idiomas, da família do aru, do tronco do aymara, foram substituídos pelo castelhano até ao ponto de desaparecerem. Tinha ouvido algo a esse respeito, pelo que tomei de novo o caminho da biblioteca, perto da minha casa, para rever a extinção das línguas no território a que agora chamam Peru. A surpresa foi enorme: kuli, den, uro, cholón, chiribaya, muchik, puquina… Pelo menos 18 línguas aniquiladas pela língua cuja Academia alardeia o slogan: “brilha e dá esplendor”.

Horror! As dúvidas começaram a apagar essas ideias colegiais de que os idiomas não têm cor, como a água. E se um idioma não é assim? Elio Antonio Martínez de Cala y Hinojosa, natural de Lebrija e, por associação, conhecido pelo sobrenome de Nebrija, já o tinha feito ver à sua rainha, Isabel, a Católica: “Sua Majestade, a língua é o instrumento do Império”. Castela já não é, contudo, o umbigo. Actualmente, o México é o Estado com maior número de falantes de castelhano – mais de 100 milhões –, ou, o que vai dar ao mesmo, mais de 95% da sua população. Desde que se criou a Nova Espanha, a língua de Castela foi oficial e a única na Administração. A partir de então, a política colonial e a crioula foi nítida: castelhanizar os indígenas. Nesse processo, imposto novamente com sabres e missais, chegaram a desaparecer uma centena de línguas. Dez vezes dez.

Entre as peculiaridades que certamente me alimentam a vaidade, dizia o meu ADN decifrado que um antepassado longínquo provinha das chamadas Ilhas Canárias. O parente, ou os parentes, deveria ter habitado nas ilhas africanas havia muitos séculos. Comunicavam numa língua a que os linguistas modernos chamaram “guanche”, termo inadequado para os mais puristas, que a chamaram “amazighe”, aparentada com os berberes numa história a que Federico Krutwig pôs o seu envoltório romântico quando escreveu Garaldea. Os berberes insulares, juntamente com a sua língua milenar e hoje desconhecida, foram exterminados pelos castelhanos, empalados e com os olhos vazados, vivos, tal como faziam os mongóis aos seus prisioneiros japoneses nas vésperas da última contenda mundial.

Não pensem, todavia, que os meus antecessores provinham todos do outro lado do oceano. Também os tenho nas proximidades e a eles farei referência nas linhas que se seguem. Uma tetravó ou algo assim (o relatório do laboratório não chega a tanta precisão, embora a árvore genealógica que construí a partir das certidões de baptismo do Arquivo Diocesano me tenha aligeirado a investigação) era natural de Beasain. A sua mãe, de Aia. Como, por estas alturas, o tema do sangue já me passava ao lado e só me preocupava com o da comunicação, quer dizer, o da língua, enviei cartas para os respectivos municípios, sobre um assunto de que possuía referências, embora não muito concretas: os castigos a quem não falasse castelhano. O primeiro respondeu-me pouco tempo depois, com uma ordem de 1730: “E que não se permita falar em basco, mas apenas em castelhano, colocando o anel e castigando-os como merecem”. O segundo demorou várias semanas e só quando mandei uma nova carta recebi a resposta, neste caso com um documento de 1784: “Dará ordem severa de que nunca falem entre si o basco, mas o castelhano. E para pontual observância desta ordem valer-se-á do meio comum ou do anel, tomando cada sábado razão do seu paradeiro e repreendendo, advertindo ou castigando directamente o que se encontrar com ele”.

A história do anel é mais recente, contada por escritores refutados. O anel, símbolo do castigo, circulava entre os que não conheciam o castelhano. Uma humilhação. Um pensamento passageiro sugeriu-me que o anel pudesse talvez ser uma versão moderna dos velhos castigos aplicados aos indígenas, que naqueles tempos, por não terem alma, eram decapitados por não aprenderem a língua românica, sem saber, precisamente, que coisa era essa de românico. Mas pareceu-me demasiado atrevido fazer semelhantes suposições com tão poucas certezas e abandonei a ideia. Retomei-a, contudo, quando reparei que em 1936 um habitante de Arrasate foi detido por falar em basco na rua e fuzilado de imediato. Casos isolados? Provavelmente.

Não gostaria, ainda assim e graças às informações que possuo sobre o meu ADN, deixar passar a ocasião para manifestar algumas reflexões sobre essas preocupações que me têm perturbado nestes últimos anos. Devo reconhecer que não fui o único a efectuar as provas e que, seguindo o caminho aberto, alguns dos meus amigos realizaram pela Internet os seus respectivos pedidos. As respostas, como era de esperar, são variadas. Os seus antepassados mais próximos foram sefarditas, moçárabes, asturianos, catalães… Como disse antes, depois de tantas voltas, o sangue tinha perdido o seu valor e centrava as minhas indagações nas línguas. Também estas, citadas, tinham desaparecido ou visto reduzida a sua área de influência, como a do basco, por castigos, proibições, etc.

E, embora não seja muito amigo da simplificação e goste dos matizes, cheguei a uma conclusão rotunda. Uma língua românica de âmbito reduzido como o castelhano converteu-se em língua de larga abrangência por questões de conquista e colonização. E que a sua expansão foi como a dos mexilhões-zebra que acabam de chegar às nossas regiões húmidas: predadores vorazes que acabam num instante com todas as espécies autóctones cuja sobrevivência tinha sido possível graças à paciência da evolução.

Assim, as razões da minha preocupação aumentaram, ao verificar que no meu país e noutros que visito com frequência uma série de mefistos modernos querem reviver velhos louros e dar um novo impulso à depredação. Acabam de nos anunciar os linguistas que em Oaxaca irá desaparecer dentro de poucos anos a língua xwja, falada unicamente por oito pessoas com mais de 70 anos. É a próxima numa lista de centenas de línguas que irão desaparecer num abrir e fechar de olhos por causa de quatro grandes agentes exterminadores, no dizer do canadiano Mark Abley: castelhano, chinês, russo e inglês. As razões para estas preocupações são poderosas e, desde a minha humilde posição, influenciada sem dúvida alguma pela riqueza recentemente descoberta nos meus glóbulos sanguíneos, gostaria de chamar a atenção, precisamente, para estas línguas exterminadoras. Talvez valesse a pena realizar um manifesto comum de depredados. Não sei. Para isso existem as associações e as cabeças pensantes. Eu só alerto para os devastadores, porque percebo na circulação do meu sangue que os seus efeitos são letais.

Iñaki EGAÑA

Fonte: Nabarralde

Paris deixou passar 25 anos sem esclarecer o paradeiro de Popo Larre


Teria agora 46 anos de idade. No entanto, passaram 25 desde a última vez em que Jean-Louis Larre foi visto com vida: o jovem de Heleta, em fuga, metia-se num bosque próximo do parque de campismo de Leon, nas Landas, onde minutos antes se deu um enfrentamento armado entre agentes da Gendarmerie e o comando do Iparretarrak (IK) ao qual Larre pertencia. Um polícia francês morreu, e um outro ficou ligeiramente ferido num dedo. A Popo, ninguém mais o voltou a ver desde então.

A 7 de Agosto de 1983, era já noite, nas imediações do parque de campismo Lou Puntao de Leon (Landas), um tiroteio entre polícias franceses e militantes do IK deu origem, imediatamente depois, a uma operação policial de grandes dimensões que cercou, num raio de vários quilómetros, o bosque no qual se tinha visto Larre pela última vez, a fugir. Mas, com isto, deu-se início a um dos episódios mais obscuros que Euskal Herria e Paris enfrentam. A reconstrução dos factos e os dados que se conheceram muitos anos depois evidenciaram que, pouco antes do enfrentamento armado, a polícia francesa prendeu um militante do Iparretarrak ao qual, supostamente, apreenderam uma nota em que aparecia o endereço do parque de campismo da localidade das Landas. Além disso, uma chamada anónima para a Gendarmerie levou dois polícias a interceptarem os militantes bascos. Após a refrega, três dos militantes de IK conseguiram safar-se da perseguição policial, enquanto Popo se meteu pelo bosque adentro.

O cerco policial, a que chamaram «Plan Epervier», contou com a participação de helicópteros, equipas de perseguição terrestre, cães treinados e polícias especiais que se espalharam pelas imediações do parque e do bosque pelo qual Larre fugiu.
Dezassete anos depois do desaparecimento do jovem de Heleta, e sem que à altura se tivesse levado a cabo qualquer investigação oficial para esclarecer a localização do único militante que várias testemunhas reconheceram – o gerente do parque de campismo confirmou que foi ele que alugou um lote no recinto –, a Corte Especial de Paris iniciou o rocambolesco julgamento que acabaria por condenar Filipe Bidart a 20 anos de prisão, Gabi Mouesca a 15 e Totte Etxebeste a 5. O único basco que desde o início se encontrava acusado no processo, Popo Larre, foi retirado do mesmo por decisão do próprio tribunal. Com o arranque do julgamento voltaram a aflorar novos dados, que mostraram o interesse nulo dos franceses em esclarecerem um desaparecimento que obviamente os implicava.

A insistência da família do polícia falecido em esclarecer os acontecimentos de Agosto de 1983 foi o que acabou por forçar a abertura do julgamento. Este – o «caso Leon» – passou durante 17 anos pelas mãos de cinco magistrados, sem que nenhum o quisesse enfrentar. Mais, nas vésperas do seu começo, a primeira das surpresas aconteceu quando os 167 elementos probatórios se viram drasticamente reduzidos a 37. Dados que foram eliminados e que nunca serão conhecidos publicamente.

Para além das contradições policiais que os diferentes agentes militares e policiais chamados a depor deixaram entrever, novos elementos conheceram a luz no mesmo tribunal que fez o possível para que não se realizasse um julgamento em que a principal incógnita recaía no paradeiro de Larre.

«Não, aquele não era o nosso filho»
Vários dias depois dos acontecimentos de Leon, a 22 de Agosto de 1983, desaparecia o jovem Pascal Dumont, com pouco mais de 15 anos, que se encontrava a passar uns dias com alguns amigos em Lacanau, a várias dezenas de quilómetros do parque de campismo das Landas. Cinco dias depois, numa praia próxima de Leon, apareceu um cadáver que a polícia identificou como o corpo sem vida de Dumont.

A sua família negou desde o início que fosse o do seu filho. Um homem que passeava pelas redondezas encontrou o cadáver às 8h45, e três quartos de hora depois a polícia contactou os Dumont para os informar de que as buscas efectuadas não tinham trazido resultados. No entanto, durante o julgamento, Yvonne Dumont declarou que “às 9h da manhã um médico forense tinha certificado a morte de Pascal Dumont”.

O pai do jovem francês, Germain Dumont, declarou que a polícia o pressionou no sentido de identificar como sendo do seu filho um cadáver que, segundo ele, não era tal. “Nem a idade aparente, nem o aspecto físico, nem os traços do rosto, nem o fato de banho que tinha... Não, aquele não era o nosso filho”, testemunharam os Dumont. O desacordo dos Dumont com a identificação evidencia-se também no epitáfio da sepultura atribuída a Pascal Dumont; a família colocou uma placa onde se lê: «Aqui descansa um desconhecido que nos foi imposto a 27-VIII-83 pela Gendarmerie, a polícia, a Justiça e os corpos médicos».

No processo judicial do «caso Leon», que se levou a cabo em Março de 2000 em Paris, foram incessantes as petições para exumar o cadáver que jazia na sepultura dos Dumont, mas foram rejeitadas, uma após a outra, sem contemplações, pelo tribunal parisiense. Finalmente, há cinco anos, quando passavam 20 sobre o desaparecimento de Larre, um magistrado de Bordele deu luz verde à exumação do cadáver para cotejar o ADN. Contudo, o nicho foi profanado seis meses antes e em Dezembro só encontraram despojos humanos e uma tíbia.

«Jean-Louis Larre encontra-se aqui?»
Outro elemento de destaque, a que os gendarmes não deram resposta no julgamento, foi o facto de, nos cartazes que a polícia publicou no dia seguinte ao tiroteio de Leon, não aparecer a foto de Popo Larre; o único militante identificado pelos polícias.

Mais ainda, a Gendarmerie não começou a recolher testemunhos antes de 9 de Agosto. Até essa data só obtiveram a descrição que lhes facilitaram o gerente do parque e o gendarme que ficou ferido sem gravidade.

Esses dados, entre muitos outros, possibilitaram que os militares e os gendarmes que declaram no processo judicial fossem surpreendidos em contradição. Mas isso não foi obstáculo de espécie alguma para que o tribunal parisiense continuasse a fazer caso omisso das demandas apresentadas pela defesa. Menos ainda depois de ver o desprezo com que se dirigia aos três bascos que se sentavam no banco dos réus.

Em Março de 2000, quando o julgamento do chamado «caso Leon» arrancou, a defesa interpelou o tribunal pela mais que estranha circunstância de nem se ter dado ao trabalho de saber o paradeiro da pessoa-chave no processo; a mais que vergonhosa resposta do presidente do tribunal veio na forma de uma ordem transmitida a um funcionário judicial – para que perguntasse tanto na sala como no exterior do tribunal especial se Jean-Louis Larre ali se encontrava.

25 anos depois do seu desaparecimento, Popo Larre continua a incomodar as autoridades francesas, que não têm interesse algum em esclarecer o que realmente aconteceu em Leon. Da mesma forma que lembrar Eduardo Moreno Bergaretxe, Pertur, e José Miguel Etxeberria, Naparra, desagrada aos governantes espanhóis.

O teatro, o desporto e a dança, gostos que, juntamente com a militância, lhe foram truncados.
Jean-Louis Larre nasceu a 6 de Abril de 1962 na localidade de Heleta (Behe Nafarroa ou Baixa Navarra). Uma terra que o viu crescer e na qual passou a maior parte da sua vida. Desportista e apaixonado pela montanha, Larre começou a ser chamado Popo pelos seus amigos de Baigorri, onde participava no grupo de dança Arrola e na equipa de rugby local. O teatro era outra das suas paixões e foi no grupo de teatro de Baiona Xirristi Mirristi onde mais desenvolveu os seus dotes. Também foi professor na AEK, embora tenha feito estudos de Electrónica e tenha sido nesta área que começou a sua carreira laboral.
Após a sua participação em grupos do movimento popular, foi também militante do grupo armado Iparretarrak (IK). Foi visto pela última vez com vida a 7 de Agosto de 1983.

Gari MUJIKA

Fonte: Gara


Popo revive em Heleta, no instante de uma homenagem

Mais de 200 pessoas juntaram-se em volta da lembrança de Popo Larre, esse jovem de Heleta desaparecido há 25 anos. Philippe Laskarai tomou a palavra e deixou uma vez mais esta questão sem resposta: onde está o Popo? Depois dele, fizeram-se ouvir o bertsolari Amets Arzallus, e os cantores Erramun Martikorena, Niko Etxart e Eneko Labeguerie.

Aceleração da justiça espanhola para ilegalizar ANV e EHAK, e resposta da esquerda ‘abertzale’

A ilegalização da ANV [Acção Nacionalista Basca] e do EHAK [Partido Comunista das Terras Bascas] é cada vez mais iminente. Ontem, foi a Procuradoria do Estado que apresentou as suas últimas alegações, em que conclui, esgrimindo provas como a rejeição do TGV, que ambos os partidos devem ser ilegalizados. Agora, é chegada a vez da defesa das formações bascas; e, depois de apresentação do texto final, para o que contam com 20 dias, será a Sala 61 do Supremo Tribunal a ditar a resolução definitiva.

A engrenagem desenhada pelo Estado espanhol contra o independentismo basco, que toma agora a ilegalização da ANV e do EHAK como objectivo imediato, deu ontem mais um passo, através da Procuradoria do Estado. Este órgão, controlado pelo Governo espanhol, apresentou perante a Sala 61 do Supremo Tribunal, encarregue de resolver as demandas contra as duas formações políticas bascas, os textos em que solicita a sua ilegalização.

Os documentos apresentados no Supremo concluem que os dois partidos violam a Lei de Partidos Políticos por serem “meros instrumentos da ETA e sucessores do Batasuna”.
Na passada segunda-feira foi o Ministério Público que apresentou os seus respectivos relatórios com conclusões similares.

Tanto o EHAK como a ANV irão receber a sentença com todas as suas actividades suspensas por um juiz instrutor de outra instância, já que Baltasar Garzón deixou ambas as formações fora do jogo político a 8 de Fevereiro, adiantando-se à actuação do Supremo Tribunal.

Oposição ao TGV
Os documentos rubricados pela Procuradoria referem como “provas dignas de crédito” da suposta instrumentalização destas formações pelo conjunto “ETA-Batasuna” factos como a oposição das parlamentares do EHAK ao comboio de alta velocidade no Parlamento de Gasteiz, que assinalam no texto como “peça essencial da estratégia de terror da ETA”. Também observam “indícios” na contratação da advogada Jone Goirizelaia como assessora do EHAK.

Outro elemento que consideram relevante para a sua argumentação é a criação de comissões municipais em Elorrio e Hernani que trabalham a favor dos perseguidos políticos naturais dessas localidades.

Todas as provas qualificadas como “dignas de crédito” pelo Procurador foram obtidas pelas Forças de Segurança do Estado e baseiam-se em escutas telefónicas e perseguições, o que evidencia o grau de acosso sofrido por estas formações políticas entre 2005 e 2008, período em que o EHAK e a ANV eram plenamente legais.

Entre prova e prova, o elogio à Lei de Partidos Políticos tem lugar nos textos apresentados ontem perante a Sala 61. Assim, os Serviços Jurídicos do Estado exaltaram a validade desta norma – construída mesmo à medida contra o independentismo basco –, ao insistirem que “não proíbe, proscreve ou persegue ideias ou ideologias, nem restringe a liberdade de expressão, nem viola a jurisprudência do Tribunal Europeu dos Direitos do Homem”.

Esquerda abertzale: «Um disfarce jurídico para uma decisão política»

Este último capítulo no processo de ilegalização do EHAK e da ANV não é mais do que o “disfarce jurídico para uma decisão política tomada de antemão”. Assim o entende a esquerda abertzale, que destaca que o processo é “um claro espelho” da situação de excepção que Euskal Herria atravessa.

Para além disso, denuncia o facto de a maior parte das alegações ontem apresentadas pela Procuradoria se basearem em relatórios policiais, o que, na sua opinião, mostra a “perseguição e o acosso policial” que sofre o movimento independentista. Neste sentido, reitera que tanto as escutas como as perseguições efectuadas a militantes bascos são “sistemáticas”.

Na nota de imprensa enviada aos meios de comunicação, mostra-se convencida de que o processo que o Supremo Tribunal dirime responde a impulsos políticos, o que considera “muito grave”. E sentencia que em Euskal Herria “não existe a democracia”, oferecendo exemplos como a ilegalização do Batasuna ou a de dezenas de plataformas populares.

A esquerda abertzale crê que o verdadeiro objectivo destas iniciativas tem como fundamento a tentativa de “travar a mudança política que leve este país para um marco democrático”. Assegura, para além disso, que o marco jurídico actual, vigente há já 30 anos, “não foi capaz” de garantir os direitos civis e políticos dos cidadãos. Um facto pelo qual responsabiliza o PNV – partido que qualifica como “simples gestor de Espanha”.

A nota faz finca-pé na necessidade de um marco democrático para Euskal Herria e defende que, para a sua consecução, é “vital” o acordo entre agentes políticos, sociais e sindicais do país.

Fonte: Gara